Embriaguez de Informação

Quando jovens, normalmente falamos a linguagem grupal. À medida que vamos ficando velhos, falamos a linguagem individual. Queremos as coisas que unicamente nos satisfaçam. Não queremos mais dividir o prato, o quarto ou a TV.

Parece que cada qual constrói o seu mundo, e nada mais. O individualismo sobrepuja, a marca pessoal se destaca, a chatice impera em muitos dos casos.

É fato: a informação que obtivermos será componente indissolúvel da nossa personalidade. Fará parte do nosso jeito de ser. Como cada qual pode escolher o que ver, ler e ouvir, pressupõe-se tipos cada vez mais diferenciados de pessoas, gerando a solidão e o isolamento.

A outra grande questão é que a maioria das pessoas não age assim, deixa-se levar pelo bombardeio de informação, tornando-se uma fácil presa e vitima dela. São os componentes compostos da manipulação de massas.

Penso que deixei de sorrir com os amigos quando decidi fazer a 10ª assinatura de revistas especializadas. Não sei ao certo se falava de ração para gatos ou de relevos e formas.

O fato é que sempre que eu puxava um desses assuntos em nossos encontros, faltava-me companhia a altura para discutir o tema.

Os camaradas não entendiam nada de ração para gatos. Eu estava perdendo o meu tempo com eles. A saída era o meu imediato recolhimento.

Creio que o meu isolamento na terra dos homens deveu-se muito à minha ansiedade de informação que me levava a adquirir todo tipo de livro novo que eu via nas galerias daquele shopping perverso.

Os catálogos do clube do livro invadiam a fenda da porta social do meu apartamento não dando mais chance de abri-la para os meus amigos.

De quando em vez, algum amigo até que tentava adentrar pela porta da cozinha, mas deparava-se com a minha desatenção, pois a atenção estava toda dedicada a responder à interminável fila de e-mail que se formava todos os dias no meu Outlook.

... Acho que só dormi mesmo quando chamei de imbecis todos os meus ídolos que quase me mataram com a overdose de informação, sob o pretexto de que aquele seria o melhor remédio para o meu sucesso profissional nesta era de megacompetitividade e dinâmico avanço da tecnologia.

Quando acordei, tive a impressão de que ainda estava embriagado de raiva. Acho que duplamente embriagado: de raiva e de informação inútil.

A minha embriaguez de informação inútil não seria capaz de me levar a formular perguntas inteligentes, capazes de me estimular a encontrar uma saída.

Oh! Meu Deus. Preciso aprender coisas úteis. Preciso ser prático, rápido e objetivo.

Banhei-me, agora já no fundo do mar, após um salto de longa distância.

Queria testar a minha resistência no fundo no mar. Mergulhei bem profundamente. Nadei com os peixinhos, vi o fundo do mar, e vi frutos da terra. Revi os meus celulares, o monitor e o teclado. Vi também o laptop, o mouse e o walkman. A TV já estava sem a tela...

Emergi imediatamente com profundo sentimento de culpa. Aqueles objetos me causaram uma sensação horrorosa. Lembranças amargas proporcionavam-me lampejos de depressão.

Vi-me defronte daqueles fantásticos equipamentos de informação preparando a minha exclusão da terra dos homens sábios.

É assim mesmo: os gênios do marketing lançam produtos capazes de despertar o desejo do usuário, que logo após a sua compra, se frustram por não ter como operá-los.

JOSÉ CARLOS SILVA é autor do livro "O NÁUFRAGO DA INFORMAÇÃO"

(Este artigo é parte do conteúdo do livro acima).

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