VOCÊ É SÓ ISSO?
“AFINAL, QUAL É O SENTIDO DE SUA VIDA?”
Na tentativa de levar luz aos labirintos do seu vazio existencial, este livro recorre às lições dos grandes mestres do comportamento e do desenvolvimento humano.
ESCLARECIMENTOS
1. Inúmeros têm sido os e-mails que recebemos de leitores interessados em adquirir o livro ”VOCÊ É SÓ ISSO?”. Informamos que apenas estamos no aguardo da editora que já adquiriu os seus direitos.
2. Para satisfazer a muitos leitores interessados em conhecer o primeiro e último capítulo deste livro, seguem abaixo pequenos trechos dos mesmos (Oportunamente os publicaremos integralmente).
PRIMEIRO CAPÍTULO – LABIRINTOS DE MINHA VIDA (Texto sem revisão)
... “A minha vida é só isso? Eu só mereço isso? Tudo que conquistei foi somente isso? As pessoas só têm isso para me oferecer? Eu só tenho isso para dar às pessoas? O meu poder de visão é só isso? O meu trabalho é só isso? Parece que tudo que eu tenho é pela metade! Se for só isso, não serve para mim!”
Como protesta Chico Buarque, também não aceitarei essa “sentença que se anuncia bruta”. Não quero mais me sentir como “quem partiu ou morreu”. Eu não quero só isso! Não quero ser só isso!
Para robustecer ainda mais este sentimento de irreverência por minha vida, que parecia conter alguma coisa que me apertava o peito e provocava uma dor que queimava por dentro, recorri a outro Chico, e me deparei com a visão do mestre Chico Xavier:
"A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.
A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos... Tudo bem!
O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... É amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos."...
ÚLTIMO CAPÍTULO - LABIRINTO DA CANALHA (Texto sem revisão)
... A canalha, a pessoa de incurável cinismo, verdadeiramente, mente e trai por ser carente de caráter ou por ter deficiência moral, assim interpretamos os ensinamentos de Napoleon Hill.
Como a verdade da pessoa canalha vem de uma grande mentira, ela representa e engana muita gente, dizendo ser o que não é. Mas, no íntimo, por “ser só isso”, por ser só mentira e disfarce, repugna-se e sucumbe diante desta que é a sua única verdade.
Excetuando a exagerada afirmativa de Nelson Rodrigues, ao dizer que “O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte", é fato que precisamos nos precaver diante da pessoa canalha, pois este tipo de gente vive armando contra todos e nem se guarda dos vermes. Depois diz: “Este é o meu destino!”
À canalha, por ser uma pessoa de incurável cinismo, trapaceira e convincente, elemento habilidoso, que chega a enganar padres, advogados, corretores, professores, negociadores e até doutores quanto à sua verdadeira doença, e que depois ainda diz: “Fiz por brincadeira!”. “Fiz porque sou inocente”, resta o aconselhamento de John F. Kennedy, ao ensinar que “Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos”.
Ela, a pessoa canalha, representa ser um grande ser, e inventa parceiros e clientes para usá-los. Mas, logo, por serem fantasmas, são remetidos para o inferno, já que os considera entediantes. Daí urra a pessoa canalha: Ah, estou vingado! Afinal, é esta a auto-recompensa dos apequenados, pois vingativo é o seu coração.
Mas como o tempo se encarrega de apurar tudo, depois ela, a pessoa canalha, diz: “Caí! A minha mentira é maior do que a minha força! Sim, ao menos isso é verdade, sou uma mentira!” Pode acreditar em mim!
Ó meu irmão, se você se lembrar de alguém que o ofendeu, que disse que você não sabia perder, esqueça. Que bom! O seu nariz se livrou daquele cheiro, daquele mau hálito. Mas, mesmo assim, perdoe. Porém, nunca se esqueça que diante de porcos, devem-se erguer cercas.
As canalhas, pessoas que vivem no labirinto da mentira, que vivem sob forte impulso motivado pelo domínio dos envolventes, que possuem agigantado anseio para seguir adiante (menos para o alto), que pagam o preço que cobrarem por sua montaria, que derrubam as cercas alheias, que vivem deslealmente, que vivem sem um sentido de vida, normalmente, pensam estar em viagem rumo à ilha da fantasia, sem se aperceber de que tudo em sua vida não passa de um exílio para esconder o rubro de sua vergonha por ter voltado para o canil...
VOCÊ É SÓ ISSO?
“AFINAL, QUAL É O SENTIDO DE SUA VIDA?”
Na tentativa de levar luz aos labirintos do seu vazio existencial, este livro recorre às lições dos grandes mestres do comportamento e do desenvolvimento humano.
LABIRINTO DO SOFRIMENTO
(Capítulo / Texto sem revisão)
LABIRINTO DO SOFRIMENTO
Por que sofremos? Esse questionamento deveria levar todos nós a refletir e aprender a avaliar melhor os nossos sofrimentos. Fatalmente vamos perceber que muitos dos nossos sofrimentos são provocados por por nós próprios. Veremos também que muitos deles não valem a pena. Ao chegarmos nesse estágio, certamente deixaremos de nos esmagar por coisas sem sentido ou absurdas. Mas vamos aprender a tolerar os sofrimentos que valem a pena.
A reflexão sobre o sofrimento pode reduzir a nossa arrogância e o sentimento da presunção, como ensina o Dalai Lama, o que nos leva a afirmar de que jamais devemos fugir do problema, evitando-o temporariamente, negando-o e procurando escudos para proteger a sensação da dor que não será curada nem mesmo com profundos mergulhos nas águas do entretenimento ou através das aventuras fugitivas.
O sofrimento faz parte da vida, e questionar sobre a dor é ter que parar para refletir sobre os nossos próprios limites, já que estes, invariavelmente, nos conduzem à ansiedade de algumas respostas de que não existem. Por que quero tanto aquilo de que não posso ter? Por que me penalizaram dessa forma? Por que foi preterido? Por que me trairam?
Padre Fábio de Melo ensina que “o grande desafio é saber identificar o sofrimento que vale a pena ser sofrido, e que se não pudermos mudar o fato de ter que sofrer, então devemos encontrar um modo de como sofrer”, afirmativa que é amparada pela lição de Victor Frankl, ao dizer que “o homem está pronto para suportar qualquer sofrimento e disposto a isso, desde que consiga ver no sofrimento um significado”.
O sofrimento faz parte da vida, mas nenhum dura para sempre com a mesma intensidade. Alguns são inevitáveis, e não há outro jeito que não seja conviver com eles. Mas há outros são criados pela própria pessoa, e esses podem ser perfeitamente evitados.
“Nós convertemos a dor em sofrimento na mente. Para reduzir o sofrimento da dor, precisamos traçar uma distinção crucial entre a dor da dor e a dor que criamos através dos nossos pensamentos sobre a dor... Se pudermos transformar nossa atitude diante do sofrimento, adotar uma postura que nos permita uma maior tolerância quanto a ele, isso poderá ajudar a combater a infelicidade...”, como profetiza o Dalai Lama, que ainda afirma que: “É nosso sofrimento que é o elemento mais fundamental que compartilhamos com os outros, o fato que nos une a todos os seres vivos”.
O pensamento exerce importante papel diante dos sofrimentos que poderiam ser evitados. Se, por exemplo, continuarmos alimentando o ódio diante das traições que foram praticadas contra nós, apenas estaremos dando oxigênio ao sofrimento. Ao agirmos assim, ruminando as nossas mágoas, martirizando os nossos pensamentos sobre as injustiças que nos cometeram, reforçando as emoções nocivas, as deslealdades para conosco, as injustiças, reagindo exageradamente diante de fatos mesquinhos, diante daqueles pobres de espírito, pessoas verdadeiramente canalhas, que zombaram de nossa dor, elementos que não foram sinceros e francos para conosco, e que talvez nem o sejam para consigo próprios, indivíduos sem compaixão e sem empatia, estaremos correndo o risco de perpetuar a nossa dor.
Por outro lado, devemos analisar se não estamos agindo com excesso de sensibilidade e super dimensionando os acontecimentos. Com humildade, é preciso saber que todos nós somos imperfeitos. De que em algum lugar do passado também já devamos ter feito alguma coisa de errado.
Jacques Lusseyran chegou a afirmar que “... Percebi então que a infelicidade chega a cada um de nós porque acreditamos ser o centro do universo, porque temos a triste convicção de que só nós sofremos ao ponto da intensidade insuportável. A infelicidade é sempre se sentir cativo na própria pele, no próprio cérebro”.
Requer que não mais classifiquemos o problema como “injusto”, até mesmo em função da sua complexidade, variedade de interpretação e pontos de vista divergentes, mas requer deixar claro de que, se continuarmos nutrindo forte apego ou enaltecendo as qualidades de pessoas que foram desleais para conosco, estaremos também aumentando o nosso sofrimento. Se continuarmos fazendo tempestade em copo d’agua, da mesma forma. Assim, sofrer ou não sofrer depende muito de nossa reação diante dos fatos.
É comum querermos culpar os outros pelo nosso fracasso. Projetarmos a questão no outro e o culparmos pelo nosso sofrimento. Há casos inclusive em que mudamos totalmente o foco da verdadeira causa de nosso fracasso e de nosso sofrimento. Isso normalmente ocorre com aqueles envolvidos em fortes emoções e que terminam causando sofrimento a pessoas que não deveriam sofrer por isso.
No meu caso pessoal, sempre lamentei quanto aos sentimentos de que eu julgava não merecer sofrer. Eu não tinha consciência para perceber o meu papel como um ser total diante do sofrimento. Permitia que um fato isolado contagiasse todo o sentido de minha vida. A minha intolerância diante das crueldades rugia muito fortemente e me levava ao arraso emocional. Eu não sabia que ao agir assim, dificilmente conseguiria me libertar do sofrimento. Eu não me preocupava com as suas causas e, consequentemente, não conseguia alcançar o estágio de liberação.
O meu modo de refletir sobre o sofrimento era muito estreito, o que não me permitia aceitar nenhuma modalidade de dor, nem mesmo aquelas que certamente iriam contribuir para o meu engrandecimento. Eu não sabia que a dor também tem o seu lado bom. Que o aprendizado é uma de suas facetas. Que mesmo com dor, só a distância nos ensina a comparar, a ver beleza no que não víamos, e às vezes a dar mais valor ao que se perdeu.
Por isso, penso que terei que fazer muitas caminhadas até alcançar um estado em que não haja sofrimento.
Mas ainda penso que a dor da perda do meu inesquecível filho, Tadeu, será sempre irreparável, até me conscientizar de que um dia ele venha a renascer, como sugere o Dalai Lama. Dentro do meu ilimitado amor por ele, aprendi que a melhor forma de guardar uma preciosa lembrança, é ver se consigo realizar alguns de seus mais profundos desejos. Assim, com amor, me esforço ao máximo por zelar e preservar o seu singelo amorzinho chamado Maria, que com toda sua inocência, é o mais puro sentido de minha existência, ao lado de um outro anjinho, chamado Marcela.
É preciso respeitar os ciclos da vida, e com serenidade, conscientizar-se de que tudo um dia chega ao fim. É como ensina Desmond Morris, ao afirmar que todos nós passamos por três estágios: do “me abraça”, do “mês solte” e do “me deixe em paz”. Mas é preciso prudência e saber que um ciclo de vida pode ser renovado, redefinido e resgatado com uma nova roupagem, evitando-se, portanto, o sofrimento.
Quanto a essa questão, e tendo como princípio a compreensão de que “só a distância nos ensina a comparar”, o Dalai Lama chega a profetizar que “antes de declarar um relacionamento morto... É prudente tirar uma distância, avaliar a situação... O ponto principal a ter em mente é que um distanciamento crescente não significa uma hecatombe... Pode fazer parte de um ciclo que volta a definir o relacionamento de outra forma que pode resgatar ou até mesmo superar a intimidade que existia no passado... Podemos descobrir que é naquele momento em que podemos estar nos sentido mais decepcionados... Que pode ocorrer uma profunda transformação. Esses períodos de transição podem ser pontos cruciais em que o verdadeiro amor começa a amadurecer e florir...” Mas para fazer essa travessia, requer muita sabedoria e humildade. Nessa ponte não cabem representações nem tampouco fingimentos.
Essa abordagem exige isenção total de arrogância e vaidade. Será indispensável trazer os pensamentos para o nível da realidade da vida, e passar a contemplar novos estágios existenciais sem frustrações nem tampouco sofrimentos previsíveis.
Essa visão certamente ajudará na construção de um novo processo de conscientização que evitará a tributação através de novos sofrimentos, que é tudo que mais se quer, afinal o nosso desejo é sermos felizes.
VOCÊ É SÓ ISSO?
“AFINAL, QUAL É O SENTIDO DE SUA VIDA?”
Na tentativa de levar luz aos labirintos do seu vazio existencial, este livro recorre às lições dos grandes mestres do comportamento e do desenvolvimento humano.
LABIRINTO DA INGRATIDÃO
(Capítulo / Texto sem revisão)
LABIRINTO DA INGRATIDÃO
Em meados do século XVIII, David Hume mostrou a benevolência natural do ser humano. Charles Darwin registrou um instinto de solidariedade à nossa espécie. Mas, Thomas Hobbes, tinha uma visão pessimista do ser humano. Ele chegou a desprezar a idéia da bondade humana, até o dia em que foi flagrado dando esmola a um mendigo na rua...
“Quem é feliz não pode ser mau”, apontou um estudo que foi realizado pela Universidade de Harvard, ou seja, o mal é fruto de pessoas infelizes (habitualmente, nessa condição, o infeliz nunca se considera assim).
Maxwell Maltz mostra que a felicidade é “um estado de espírito e que nossos pensamentos são agradáveis uma boa parte do tempo... Se você esperar até que mereça pensar pensamentos agradáveis, o provável é que tenha pensamentos desagradáveis a respeito de suas próprias falhas”. Spinoza afirma que “a felicidade não é recompensa da virtude... Mas a própria virtude”. Ao fazermos a interpretação dessa afirmativa, concluimos que não é por deixarmos de ser ingratos que seremos felizes. Mas sim, se somos felizes, logo não seremos ingratos.
Entretanto, de forma implacável, os ensinamentos de Lao Tse nos levam a interpretar de que, os indivíduos sem uma hierarquia de valores bem definida (Veja o capítulo Labirinto dos Valores Humanos), que ainda não conseguiram dar um sentido à sua vida, são capazes de encenar e mentir para satisfazer os seus desejos mais primários, e até mesmo de se voltar contra os seus companheiros leais.
São pessoas que têm a ingratidão, a indiferença e a desconfiança como traços marcantes de sua personalidade. Que não vêem ninguém à sua frente, nem ao seu lado. Um corpo caído? Ah, foi apenas mais um corpo! São indivíduos que possuem os olhos assassinos. Que colocam qualquer cabeça no laço. Que acham que todos são insignificantes e tolos. Que estão sempre de passagem. São pessoas que a sua verdade vem de uma grande mentira. Que não confiam em ninguém... Talvez nem em si próprios. Que não acreditam que há pessoas autênticas, sinceras e bondosas. Que não acreditam na beleza de um rio de lágrimas. São indivíduos capazes de buscar a autoglorificação em detrimento dos sentimentos alheios. Que para se elevar, não titubeiam em abrir fogo emocional, e salve-se quem puder. Que vivem sem pensar nas conseqüências e em permanente nevoeiro mental. Que não são independentes intelectualmente. Que vivem sob a égide da máxima do “se não mais lhe reconheço, logo você não mais existe”. Que saltam no primeiro porto, e seja o que Deus quiser. Que são facilmente influenciáveis. Que ainda não se aperceberam de que “os dramas da nossa vida são reflexo das visões mais íntimas que temos de nós mesmos... Ou porque falhamos em nossa própria honestidade...”, como afirma Nathaniel Branden. São indivíduos capazes de recordar com nostalgia algumas das cenas mais agradáveis de sua vida. Que ainda não se conscientizaram de que quanto mais forem desconfiados, indiferentes e ingratos, maior será a sua infelicidade, maior será a sua solidão e o seu vazio existencial, como interpretamos uma das passagens dos ensinamentos do Dalai Lama.
Thomas Hobbes entende essa conduta como “característica da criatura egoísta, aquela que ao ver-se forçada a fazer uma opção o faz em detrimento da felicidade do outro”. Comportamento que contraria a filosofia hindu, que orienta para agirmos convictos de que não estaremos causando mal a ninguém. Que fazer o mal sem saber não poupa uma pessoa das conseqüências de causar o mal.
Perceber o seu potencial para ferir e compreender como não ferir deveria ser uma busca pessoal. “Enquanto você estiver agindo com a suposição de que há uma coisa certa a fazer, o seu propósito deve passar a ser o de descobrir e fazer a coisa certa”, como orienta Lou Marinoff em Mais Platão , menos Prozac. Assim, deveremos ter muito cuidado com o que pensamos, dizemos ou fazemos a alguém.
Pode ser que esse comportamento seja proveniente do que Sócrates chamou de ética simétrica: “Você tem a capacidade de fazer uma certa quantidade de bem, que é sempre acompanhada da capacidade de fazer a mesma quantidade de mal. É a capacidade que têm as pessoas mais próximas de nós de nos ferir mais, como de nos amar também”. É como se apresenta na parábola do Labirinto dos Relacionamentos, onde pessoas com esse perfil acham que somente os ratos, por serem idiotas, não teriam a coragem de jogar num canto qualquer o velho queijo de sua preferência... Mesmo que depois chegassem às lágrimas.
Para evitar decepção, deve-se ficar bem atento ao que ensina Lou Marinoff, ao afirmar que “o oposto do amor apaixonado não é o ódio, mas sim a indiferença”. Mas como a indiferença só deixa cicatriz, portanto não chega a matar, e “o que não mata imediatamente pode fortalecer”, como afirma Nietzsche, ou como disse certa vez Martin Luther King Jr.: “O que não me destrói me torna mais forte”, pode ser que você saia mais fortalecido do que quando entrou no Labirinto da Ingratidão, assertiva que é amparada por William Wordsworth, ao afirmar que: “Uma profunda aflição humanizou minha alma”. Portanto, na busca dessa humanização, mesmo diante daqueles que praticarem a ingratidão, retribua sempre com gratidão... “Eles podem não saber o que fazem”.
Para conceituar melhor essa questão, basta entender os ensinamentos de Kant, ao recomendar que “devemos tratar as outras pessoas como fins em si mesmos, não meios para nossos fins”. Quem assim se comporta, lamentavelmente, corre o risco de expandir o seu vazio existencial e um dia vir a sentir o dissabor de estar acompanhado, mas viver na solidão.
É preciso que ao menos se fique atento ao que a doutrina espírita chama de “lei de causa e efeito” para e xplicar as contingências ligadas à vida humana. Segundo ela, a todo ato da vida moral do homem corresponderia uma reação semelhante dirigida a ele, criando-se, assim, algo similar ao "cosmos ininterrupto de retribuição ética", a que alude Max Weber em Economia e Sociedade .
Segundo Kardec, esta lei procura explicar os acontecimentos da vida atribuindo um "motivo justo", e uma "finalidade proveitosa" para todos os acontecimentos com que se depara o homem, inclusive o sofrimento.
Assim, aqueles que têm a ingratidão e a desconfiança como traços marcantes de sua personalidade, devem ficar atentos ao que preconiza Platão, ao afirmar de que nada fica impune e “...Que embora escapem em sua juventude... Um dia serão descobertos pelos desígnios da vida... Ainda sofrerão o escárnio...”
Por tudo isso, devemos dedicar alguns de nossos preciosos minutos para entender a sabedoria de Pastorino, ao alertar que “devemos nos lembrar de que colheremos, infalivelmente, aquilo que houvermos semeado. Se estamos sofrendo, é porque estamos colhendo os frutos amargos das sementeiras errôneas do passado. Fique alerta quanto ao momento presente! Plante apenas sementes de otimismo e de amor, para colher amanhã os frutos doces da alegria e da felicidade. Cada um colhe, exatamente, aquilo que plantou”.
Diante dessa sabedoria, tudo leva a crer que quem assim não se comporta, corre o risco de vir a perceber que “o seu espetáculo poderá fazer com que o palhaço fique triste, que a bailarina não dance mais e que os trapézios desapareçam... que não se deve zombar da platéia compassiva... que um dia a lona poderá despencar de vez e tudo deixará de existir”.
Recorremos mais uma vez a Nietzsche, que adverte de que “a mamos desejar, mais do que amamos o objeto do nosso desejo”, ao que Bob Dylan, em versão de Zé Ramalho, se faz entender através da canção “Como uma pedra a rolar” de que “... N ão se devem usar os outros para se ter o que se quer... Que você poderá ficar invisível ... Que a sua voz poderá não ter mais nada a falar... Que o seu orgulho não terá mais valor... Que você poderá ficar sem nenhum álibi. Que o seu encanto não mais encantará... Que você pode não ter mais nenhum segredo guardado... Que você não terá mais nada para barganhar... ”
Enfim, que deve ser duro perceber de que pode ser tarde para se arrepender... Que se você não se cuidar terá que penhorar até mesmo a sua alma. Que você nunca deve jogar de forma indecente. Que você não deve desarmar os seus guerreiros. Que você deve evitar tudo isso para não vir a perceber da sua janela que os seus aliados já se foram embora. Que não mais adiantará você chamar nome algum. Que você deve agir com determinação para não ficar somente com os vermes. Que você não deveria mentir. Que você poderá ficar algemado e nem perceber. Que deve ser duro concluir de que a ilusão acabou... Que deve ser duro concluir de que foi só isso que você conquistou em sua vida... Que um dia você será descoberto pelos desígnios da vida...
VOCÊ É SÓ ISSO?
“AFINAL, QUAL É O SENTIDO DE SUA VIDA?”
Na tentativa de levar luz aos labirintos do seu vazio existencial, este livro recorre às lições dos grandes mestres do comportamento e do desenvolvimento humano.
LABIRINTO DO CONTÁGIO EMOCIONAL
(Capítulo / Texto sem revisão)
LABIRINTO DO CONTÁGIO EMOCIONAL
É razoável que se defina uma nova compreensão a respeito das convivências. Aqueles que se relacionam com amor devem ter como missão abrir mares para que o outro possa atravessar. Devem ter atitudes voltadas para acrescentar a vida do outro. Agem para que o outro possa ser ainda melhor do que sempre foi. Focam no crescimento individual do outro. Respeitam o mundo particular do outro. Fazem tudo para preservar a condição de ser humano, a história e os valores irrenunciáveis do outro.
Nas convivências equilibradas não cabem invasões nem tentativas de reduzir o território do outro. Respeitam-se os limites e sob nenhum argumento deve-se avançar sobre eles. Não se permite roubar um pedaço do outro. A individualidade do outro é sempre preservada e nunca arrebatada.
Nessas relações a entrada é sempre pela porta da frente. A identidade do outro é aceita como um dom supremo. As fotos e as flores da vida podem ficar sobre a mesa. Não se tenta afastar uma das partes de sua história, daquilo que a completa, que possa representar registros valiosos de suas caminhadas.
Nenhuma das partes tem o direito de estabelecer como o outro deve se comportar. Convivem de forma emocionalmente equilibrada, se completam, se ajudam e agem para resgatar a individualidade do outro.
Por mais preciosa que seja, uma parte não tem o direito, consciente ou inconscientemente, de contagiar a outra com as suas emoções nocivas, particularmente aquelas pessoas mais susceptíveis, mais impressionáveis, que facilmente vão às lágrimas, que facilmente vão ao sorriso. Enfim, pessoas que são mais prontamente movidas pelos sentimentos alheios.
“As pessoas impressionáveis, correm o risco de preencher todas as expectativas dos outros e, no entanto, falhar em relação às suas próprias... Poderão conquistar honras e concluir de que não chegaram a nada... Serem adoradas por milhões e despertar todas as manhãs com uma nauseante sensação de fraude e vazio”, como mostra Nathaniel Branden. São pessoas que vivem para causar uma boa impressão nos outros, que buscam a felicidade em todos os becos escuros e sem saída de seus labirintos, menos dentro delas próprias.
Ninguém tem o direito de persuadir pessoas para que elas abram mão de parte do que foi construído antes de sua vinda. Quem assim se comporta, ainda não conhece a essência do amor, como ensina Krishnamurti, ao afirmar que “o nosso problema está no fato de somente conhecermos sensações... mas não o amor”.
Sobre o amor, Wayne W. Dyer ensina que “É a capacidade e disposição para permitir que aqueles que você ama façam suas próprias escolhas, sem insistir para que o satisfaçam”. Amar é antes de tudo confiar e lutar pela liberdade do outro. É abrir estradas para que o outro se ache, para que o outro nunca se perca. Fora disso, não é amor, são apenas sensações sentimentais ou mediocridade amorosa.
Não dá para acreditar nas convivências que são pautadas pelo poder da influência ou pela imposição, mesmo que inconscientemente. Que uma das partes queira ser escultora da imagem do outro, afinal não se pode esquecer de que o que despertou a atenção do outro foi o seu jeito original de ser.
Convivências saudáveis e duradouras são aquelas que têm o poder de estimular o crescimento individual do outro para somente depois se pensar no crescimento do “nós”.
Ninguém quer ter o seu território ou a sua história subtraída. Não cabe domínio, nem tampouco represálias por falhas cometidas, afinal o que foi feito não pode ser mudado, tudo que resta é o perdão. Se não for assim e o apego persistir, será negativo até mesmo para o seu desenvolvimento pessoal. Portanto, vale indagar se esse sofrimento vale à pena?
Bhagavad Gita diz que “essas relações que provocam frio e calor, dor e felicidade, vêm e vão, não são permanentes”. Qualquer relação que se preze deve ser lastreada na independência e não na dependência. Não cabe domínio e muito menos submissão.
Mas o risco é iminente. Somos vulneráveis aos contágios emocionais que poderão mudar o sentido de nossa vida para pior.
Recorremos a Jung para desenvolver a primeira parte de nossa parábola sobre a peça protagonizada pelo “envolvente e o envolvido”. A segunda parte está no capítulo LABIRINTO DOS RELACIONAMENTOS.
“...Inicialmente será dócil, cortês, gentil e usará de todas as artimanhas para que a sedução seja bem sucedida... Ele o seduz com gentileza, atenção. Não cobra pelas primeiras porções, porque sabe que a vítima precisa ser conquistada. Depois de firmada a dependência o que se vê é... O outro exige o que não é direito seu exigir. Ultrapassa os limites que deveriam ser preservados e...”, como registra o Padre Fábio de Melo em sua humanizadora obra “Quem me roubou de mim”, que, se quisesse, poderia ainda ter afirmado de que, nessa condição, o outro não tem e nem precisa ter atitudes voltadas para acrescentar nada de forma consistente à vida do parceiro (agora envolvido), e nem age para que esse possa ser ainda melhor do que sempre foi.
O objetivo é contagiar o envolvido, que passa a ser explorado emocionalmente, e o ataque se dá estrategicamente nos seus pontos fracos. Aqueles que não resistem a abalos emocionais, o que só reforça as ações do envolvente. Ele sabe que o envolvido tem medo de perdas. Todo envolvido permite que o envolvente estabeleça o seu ritual de vida. Aceita o rastreamento. Deixa que o vazamento emocional do outro inunde a sua vida. Só consegue chorar no banheiro, mesmo quando percebe que teve que abrir mão do que já era seu. Se deixa levar por palavras mágicas. Por embalagens surreais. Se sente atado por qualquer lacinho de fita vermelha e nem tem iniciativa para desatar o nó. Permite o caos emocional. É omisso quanto à invasão de sua privacidade. Permite a banalização dos seus sentidos e acha que está tudo bem. Deixa que arranquem a mais preciosa rosa do seu jardim. Não reage se cortarem os seus laços de amizades. Permite que arranhem a sua alma. Se curva diante dos afetos em detrimento da razão. Não tem coragem para pedir socorro e às vezes pensa que nem precisa. Tem medo de ser deixado, nem que a relação seja mesquinha. O envolvido pode passar até a gostar e se condicionar ao acorrentamento emocional. Talvez até tema a liberdade. Se livre, pode querer voltar para a prisão emocional. Às vezes chega até a internalizar de que tudo isso vale a pena. Chega a afirmar de que sabe fazer escolhas e não permite opinião contrária. O envolvido é escravo de seus desejos e nem pensa em reduzi-los. Pode se esquecer de crescer como ser humano e profissionalmente. Sonha em ser feliz para sempre. Acredita em contos de fada. Projeta no outro o sentido de sua vida. Nem quer saber do tempo e aonde quer chegar. Vive bem longe de si, mas acha que se encontrou. O envolvido é dominado, mas não concorda com isso.
Sob pena de vir a sucumbir, a parte dominada tem que dar o seu grito de liberdade: “Chega, assim eu não quero!”. Abaixo a servidão conjugal! Isso é relação de aluguel.
Mas não dá para não afirmar de que inícios arranhados normalmente redundarão em finais dolorosos, salvo nos casos em que as partes envolvidas estejam num elevado grau de maturidade e serenidade.
É claro que situações assim normalmente ocorrem quando uma das partes inicia cedendo às suas preferências de cor e sabor, entre outros. Colocando-se em segundo plano até vir a ser envolvida e perder a sua individualidade, em nome do amor romântico.
“Se sempre acontece de você se voltar para querer agradar a outra pessoa, certamente você perdeu o seu plano de vida... Apegue-se somente a coisas que estejam inteiramente dentro do seu poder”, como aponta Epictetus (ano 55-135. Diziam que ele era mais sereno do que o imperador Marco Aurélio, de quem era tutor).
Demonstrar respeito é louvável, ainda mais quando o objetivo estiver voltado para uma boa convivência com os outros. Mas não é necessário ser submisso. Por que colocar o parceiro no altar? Por que ajoelhar-se? Por que humilhar-se? Para o bem de uma relação, basta ter maneiras e respeito próprios, e isso não requer que você se curve, que aceite tudo, que dê tudo... A partir daí, nada mais faz sentido.
Assim, nada faça ou nada diga se isso vier a lhe depreciar, agindo dessa forma a sua força e o seu valor desaparecerão e você nada mais será do que um precioso objeto de estimação.
Nessas circunstâncias, Ayn Ran ensina que “é preciso agir imediatamente para diminuir o prejuízo, protegendo a si mesmo, nem que seja através do rompimento. Devemos aprender que é melhor o rompimento pelo motivo certo do que a união pelo motivo errado”.
Mas é preciso saber que a dor também tem o seu lado bom, e o aprendizado é uma de suas facetas. Só a distância nos ensina a comparar, a ver beleza no que não víamos, e às vezes a dar mais valor ao que se perdeu.
Outra coisa importante é saber que você não tem o dever de partilhar com o outro sobre tudo que sente e experimenta. Sua privacidade e sua história têm que ser preservadas e respeitadas, caso contrário você é um dependente, alguém acometido pelo contágio emocional.
Não é seu o papel fazer a felicidade do outro, a sua missão é o companheirismo leal e acolhedor. Epictetus chega a esclarecer que “quando vir alguém chorando de pesar... tome cuidado para não ser levado... No entanto, não hesite em ser solidário”.
O Dalai Lama profetiza que “o amor romântico pode até mesmo afetar a nossa evolução espiritual e que por isso não o vê como algo positivo, já que normalmente termina em frustração, como tudo que é fantasioso na vida”.
Você tem que ser o dono das suas próprias emoções. Fuja dos amores inventados como se foge de bombas. Aliás, ambos têm o mesmo efeito devastador sobre a vida... E talvez sobre a alma.
VOCÊ É SÓ ISSO?
“AFINAL, QUAL É O SENTIDO DE SUA VIDA?”
Na tentativa de levar luz aos labirintos do seu vazio existencial, este livro recorre às lições dos grandes mestres do comportamento e do desenvolvimento humano.
LABIRINTO DOS RELACIONAMENTOS INSUSTENTÁVEIS
(Capítulo / Texto sem revisão)
Mergulhar nas profundezas do labirinto dos relacionamentos é algo sempre muito arriscado e complexo. A água é tão escura que, às vezes, nem chega a permitir que você consiga ver o seu próprio reflexo. Há relacionamentos que são de leveza insustentável. Às vezes se quer distância de alguém, chegando a ter indiferença que beira às raias da insensatez. Mas, por outras vezes, tudo que se quer, é que essa mesma pessoa esteja ao seu lado, para ouvir a voz do seu coração. Comportamentos assim são característicos de incertezas emocionais, o que nos remete aos ensinamentos de Sócrates a respeito da ética simétrica.
É complexo mergulhar nos relacionamentos porque envolve aspectos objetivos e subjetivos, e indispensavelmente a consciência do “eu”. Até porque, para tornarmos conscientes de nós mesmos, temos que emergir e nos distinguir dos outros.
Jung ensina que “quando a inteligência for deixada de lado, normalmente a escolha do parceiro se realiza por motivos inconscientes e instintivos”. Nesses casos, raras vezes, ou quase nunca, haverá paz na relação. Muito dificilmente o sofrimento não estará presente.
Aqueles inesquecíveis momentos podem cair no esquecimento ou se transformar em rotina. O tempo que voava, pode teimar por não passar. Fatalmente surgirão as cobranças. A desconfiança e o rastreamento devem querer entrar em cena ou optar por se esconder por trás das cortinas. Mais cedo ou mais tarde o Prozac vai reivindicar o seu lugar. A alma pode se entristecer. Se não houver muito cuidado, a atividade profissional pode se despencar. Tudo mais poderá perder o sentido... Até a ilusão pode se acabar!
Nessa segunda parte de nossa parábola sobre a peça protagonizada pelo “envolvente e o envolvido”, de acordo com os ensinamentos de Jung, imaginemos que no início tudo eram flores. Que a paixão reluzia no pomar de amor sem fim, violetas, lírios, rosas, dálias e girassóis. Também deveria haver queijo à vontade. Mas como a paixão foi concebida para não durar, pois “só dura enquanto a luz estiver apagada”, para mudar de aspecto, basta clarear. A partir daí surgirá a verdade.
...Até que se tentou procurar novas motivações, mas tudo que se achava era desencanto. Teimosamente o inconsciente queria avançar, mas o consciente queria recuar. Diante desse conflito, nada mais restava do que procurar a primeira saída para se ver livre do labirinto, afinal o queijo devia ter acabado ou mudado de sabor.
Em nossa parábola, com o passar do tempo, além de não conter as proteínas de que o envolvido necessita, por ser demasiadamente previsível, o queijo do envolvente vai ficando repetitivo e enjoativo, afinal, todo dia ele é servido sempre igual, pela manhã, ao meio dia e à noite... e o envolvido não estava preparado para isso.
Com toda submissão que é peculiar a qualquer envolvido (alguns só conseguem perceber essa condição tempos depois), ele até que se empenhara para viver sem o queijo de sua preferência, desde que escolhera uma nova marca para consumir.
Com persistência, o envolvido sai todas as noites pelos pavilhões do labirinto na esperança de ter o seu queijo de volta, mas tudo que encontra é um queijo de qualidade inferior. Pensou até em procurar um queijo de outra marca, mas o seu inconsciente não permitiu. À beira de perder a esperança, planejou desistir de tudo e ficar no labirinto sem queijo algum.
Em uma manhã de verão, ao passar por uma galeria mais estreita do labirinto, o desespero quase tomou conta do envolvido, que sentiu bem de perto o cheiro do velho queijo de sua preferência. Mas teve que ser contido por alguns ratos armados com tridentes... O seu lado consciente deixou uma lágrima cair.
Quanto aos ratos, o envolvido chegou a afirmar de que eles, por serem idiotas e irracionais, nem percebem que para se alcançar a felicidade, a primeira coisa a se fazer é jogar o velho queijo em um canto qualquer, como se faz com os velhos cadernos... mesmo que isso venha lhes custar um rio de lágrimas... Afinal, ser feliz é só isso! É a força e o poder do inconsciente.
O problema é que, por não ter interpretado corretamente o drama vivido por Sniff, Scurry, Hem e Haw, personagens criados por Spencer Johnson no best-seller “Quem mexeu no meu queijo”, o envolvido pensou que todo labirinto era igual. Que os seus corredores e galerias tinham as mesmas dimensões e características. Que não havia esquinas sem iluminação nem tampouco becos sem saída. Ele acreditava que qualquer tipo de queijo poderia substituir a marca de sua preferência. Ele achava que todo queijo tinha o mesmo sabor, as mesmas proteínas e fazia o mesmo efeito.
O envolvido pensava que naquele labirinto, local de grandes estoques de queijo, reduto de ratos com perícia, especialistas na matéria e com instintos aguçados, de uma hora para outra, até um queijinho poderia se transformar em um queijão. Que tudo era uma questão de tempo. Que basta perseverar para acontecer.
Ele insistia de que essa história de querer se libertar de queijo sem marca é coisa de ratos invejosos. Que vazio existencial têm aqueles que não possuem um estoque de queijo para durar a vida toda. Que por serem medrosos, somente os ratos temem o futuro. Que nunca será como um rato estúpido e chato, que chega a se julgar prisioneiro só por causa de um queijo. Que por não terem visão, somente os ratos acham que um grande estoque de queijo possa um dia se acabar. Que ter muito queijo é sinal de vida em abundância. Que somente os ratos inseguros desistem e entram em pânico quando percebem que o queijo está se acabando. Que não acreditava que os ratos seriam capazes de estudar cenários e antever os acontecimentos. Que eles não são estrategistas ao ponto de sair em disparada para procurar um novo queijo pelos becos escuros e sem saída daquele labirinto somente porque perceberam pequenos sinais de mudança em seu queijo.
O envolvido se sentia convicto de que a sua vida passou a ter um novo e consistente sentido a partir do dia em que conquistou o seu estoque interminável de queijo tipo 24 horas. Que agora tinha tudo para ser seguro e feliz para sempre. Que tinha se esforçado e perambulado muito pelos cantos escuros e galerias sombrias daquele labirinto até encontrar o seu precioso queijo, e que por nada desse mundo abriria mão dele.
Se alegrava ao afirmar que, tem visto muitos ratos com ares de felicidade por terem conquistado um grande estoque de queijo tipo 24 horas, e que, por isso, voltam à noite para casa sempre ziguezagueando, cantarolando, abanando as suas grandes orelhas, com o focinho arrebitado para o alto, de panças cheias, e com a certeza de que na manhã seguinte terão mais queijo para roer. Que não acreditava que esse comportamento poderia fazer algum mal a eles. Que isso não era sinal de arrogância ou ingratidão.
O fato é que essas crenças reforçavam ainda mais as convicções do envolvido.
Cada vez mais ficava clara a sua certeza de que bom mesmo era ter queijo na geladeira para ser usado quando bem quisesse. Que por falta de queijo nunca seria infeliz. Que bobos são os ratos de orelhas curtas que continuam mantendo a sua rotina de chegar antes do sol para ver se o seu queijo continua no mesmo lugar. Que somente eles, por não saberem viver o momento presente como o tempo mais importante da vida, alimentam essa história de visão de futuro, até virem descobrir que um dia o queijo poderá acabar e entrarem em pânico antes do momento certo.
Fazia ver que sensatos são os ratos orelhudos que não estão nem aí para esses pequenos detalhes. Que por se comportarem assim, mantém o equilíbrio mesmo se vierem perceber que o estoque de seu queijo tenha se acabado. Que por serem inteligentes emocionalmente, o máximo que vão dizer é que isso não é uma coisa justa.
À frente da galeria principal daquele labirinto, como que preso em um aquário, com os braços cruzados e sentado em uma larga cadeira de balanço, o envolvido começou a bradar. Fez a sua rouca voz ecoar pelos becos escuros e sem saída: “É impossível tanto queijo assim se acabar de uma hora para outra! Com certeza, isso nunca vai acontecer com o meu estoque! Acredito tanto nisso que até estou planejando me mudar para bem perto do meu estoque de queijo. Quero levar os meus amigos para conhecê-lo, e todos certamente dirão se tratar de um produto de primeira qualidade. Portanto, será injusto para com os meus planos de vida que o meu queijo se acabe. Isso não pode acontecer! A vida não pode ser assim tão cruel comigo!”
Já cansado de bradar, virou a sua cadeira de balanço para o lado em que a brisa do mar soprava frontalmente à galeria principal do labirinto e começou a sussurrar: “O meu queijo é o sentido de minha vida! Ele representa todas as coisas bonitas de que eu conquistei. Foi ele que me fez ver o que eu nunca tinha visto. Que me trouxe de volta à vida. Que me fez crescer. Que não permitiu que eu fosse só aquilo. Foi ele que me transformou em um ser humano especial. Que me fez acreditar em mim mesmo. Foi ele que me contagiou positivamente com o seu extraordinário poder de visão. É o meu queijo que me motiva a trabalhar. Que me estimula a fazer novas descobertas. Que me leva a questionar sobre o que eu tenho feito para ser melhor. Que me orienta nos meus projetos de vida. Que não me vê como os outros. Que me ouve sem que eu tenha que falar. Que lê os meus olhos. Que entende o meu silêncio. Que não perturba o meu sono. Que não me incomoda quando sente que alguma coisa está queimando o meu peito. Que entende as razões do meu vazio existencial. Que compreende porque eu não devo examinar o sentido de minha vida. Que respeita a minha dor. Que enxuga as minhas lágrimas. Que me acaricia nessas horas. Que me mostra que tudo pode melhorar um dia. Que tem sensibilidade para me dizer que tudo que mais quero na vida pode estar bem ao meu lado. Que respeita o meu mundo particular. Que não invade os meus territórios. Que luta para preservar a minha individualidade e a minha história. Enfim, o meu queijo é a minha felicidade. Os meus sonhos. A minha paz. Minha tranqüilidade. Minha segurança. O meu queijo é o meu futuro. Ah! Meu Deus, eu não vou conseguir viver sem ele! Ah! Meu Deus, eu prefiro até morrer se isso vier a acontecer!”
Agora, vendo o seu estoque de queijo em nível já muito baixo, o envolvido não se conteve: “Por que fizeram isso comigo? Deve ter sido coisa de ratos mal educados, famintos e gulosos, que todas as noites foram roer o meu queijo! Vou apurar isso mais profundamente. Preciso de tempo! Somente depois vou decidir se devo partir para procurar um novo queijo. Vou confiar na visão dos ratos orelhudos que nunca perdem a tranqüilidade. Por que eu vou me espelhar nos ratos de orelhas curtas que são sempre ansiosos e apressados? Que a essa altura já devem estar bem longe, em outros becos sem saída, que não pensam em mais nada que não seja encontrar um novo queijo. Eu não vou sair por aí procurando um novo queijo como eles fazem. Eu sou gente e eles são ratos! Eu tenho certeza de que nunca vou ser apanhado de surpresa. Confio em minha intuição.
Mesmo parecendo delirar, continuava: Vou negar tudo isso para o meu ego. Vou dizer a ele que o meu queijo jamais se acabará. Vou direcionar também os meus pensamentos para essa crença. Nós três precisamos nos conscientizar de que o meu queijo deve estar escondido em algum lugar. Cedo ou tarde ele aparece.
Enfim, conscientizou-se de que o medo que o paralisava, que roubava a sua racionalidade e a sua serenidade tinha que ser vencido. Sentiu que era preciso se libertar de suas antigas convicções e da crença de que o seu queijo não estava se acabando. Necessitava seguir em frente.
A sensação de um grande vazio existencial o perturbou de tal maneira que foi impossível não perceber de que os seus receios e suas crenças estavam tornando as coisas muito piores. Não era inteligente se sentir prisioneiro do próprio medo.
Após engolir um Prozac, a seco, o envolvido conseguiu dormir, e até sonhou com o seu antigo queijo. Um grande estoque do velho queijo de sua verdadeira preferência. Eram pilhas e mais pilhas de queijo que só precisaria ser descascado... Chegou até a provar uns pedacinhos e viu que era o mesmo queijo dos velhos tempos, só que agora com muito mais qualidade... “O tempo deve ter purificado o seu sabor”. Até parecia queijo não perecível, daqueles que não é preciso se guardar na geladeira. Na realidade era queijo para ser servido à luz de vela, em fatias especiais e personalizadas. Pronto para ser consumido deliciosamente e sem moderação. Rico em proteínas e sem efeitos colaterais.
Foi um sono rápido, interrompido por um burburinho de ratos à frente de sua galeria. Os ratos comentavam sobre o que tinha sido dito pelo velho ratinho orelhudo, tido como o mais sábio daquele labirinto, a respeito do que o envolvido houvera afirmado, ao dizer que “os ratos são tão idiotas e irracionais que nem percebem que para se alcançar a felicidade a primeira coisa a se fazer é jogar o queijo velho em um canto qualquer... mesmo que isso venha lhes custar um rio de lágrimas”.
O velho ratinho orelhudo tinha alertado de que essa história de lágrimas poderia ser outra coisa. Que precisava ser melhor analisada. Que podia ser tristeza. Que podia ser a mente racional empurrando a mente emocional para trás. Que podia até ser empatia recolhida por algo não esquecido, e que viver assim não tinha sentido. Que seria possível surgir um novo queijo a partir de um velho queijo, desde que esse fosse de uma boa safra. Que ele já tinha visto casos assim. Que tudo era uma questão de visão e de sentido de vida. De comportamento equilibrado. Que com novos pensamentos e atitudes seguras tudo podia mudar.
O fato é que, a partir desses ensinamentos, o envolvido passou a ver uma luz no fundo do túnel de seus labirintos, e começou a mudar. Acendeu o sinal de alerta, e ele viu que podia dar um novo e concreto sentido à sua vida. Brotou a conscientização de que o impulso mais forte rumo à autotransformação surge quando se deixa de sonhar com aquilo de que não existe, assim como, não mais se contentar com aquilo mais ou menos.
Mas a luz se acendeu de novo, agora como se fosse um holofote. Clareou as profundezas da consciência. O envolvido finalmente concluiu de que aquele queijo de fato estava estragado. Que a moral da história protagonizada pelo “envolvente e o envolvido”, não estava no sumiço do queijo.
Tamanho foi o clarão, que deu também para se ver que o estoque de queijo, de que verdadeiramente se gostava, de fato, tinha acabado ou poderia estar em outro lugar. Não tinha outro jeito, senão partir para encontrar um novo queijo que agradasse ao paladar e se harmonizasse com um sentido de vida concreto... Mas talvez o mais sensato fosse seguir as lições do velho ratinho orelhudo.
E foi assim que o envolvido conseguiu sair daquele labirinto. Não dava mais para suportar a imensidão do seu vazio existencial e de suas incertezas emocionais. “Ao procurar no outro o queijo de sua preferência, viu que isso seria impossível e perturbador, além de muito complicado”.
Como alerta Jung, o complicado é complicado. Ele não cabe no outro, mas o envolve, ao passo que ele próprio não se sente conscientemente envolvido, apenas é complicado. Por não se sentir conscientemente envolvido, passa a exercer o papel de um problemático na vida do outro. Por apegar-se a isso, consegue cada vez mais penetrar na vida do outro e causar um silencio de incomodar até os vizinhos do labirinto.
Tudo era tão complicado que nem permitia que o envolvido ao menos se lembrasse do seu próprio nome, que insistentemente ecoava pelas galerias e becos escuros e sem saída daquele labirinto.
Tudo que o envolvido queria eram comportamento e respostas simples. Além disso, o espaço de que dispunha no labirinto era pequeno demais para armazenar os seus verdadeiros sonhos e desejos. Não cabia a sua história nem tampouco a sua individualidade.
Por fim, o envolvido percebeu que nesse seu espaço, uno e indivisível, havia hóspedes não desejados por sua alma. Hóspedes que, mesmo inconscientemente, poderiam mover a roda do sentido de sua vida para trás.
E não restou para o envolvido outra coisa que não fosse urrar pelas galerias daquele labirinto: EU NÃO SOU SÓ ISSO! EU NÃO QUERO SÓ ISSO PARA MIM! ESSE QUEIJO ESTÁ ESTRAGADO E VAI ESTRAGAR A MINHA VIDA...
VOCÊ É SÓ ISSO?
“AFINAL, QUAL É O SENTIDO DE SUA VIDA?”
Na tentativa de levar luz aos labirintos do seu vazio existencial, este livro recorre às lições dos grandes mestres do comportamento e do desenvolvimento humano.
LABIRINTO DA COVARDIA
(Capítulo / Texto sem revisão)
Como encoraja Shakespeare, não devemos nos acovardar. “... os covardes morrem mil vezes antes de suas mortes; O valente só experimenta a morte uma vez...”.
Mas, como seres humanos em evolução, devemos compreender que, mesmo sabendo que eles foram demasiados covardes conosco, mesmo assim, não devemos querer mal a ninguém. O máximo que podemos fazer é compreender a sua pequenez e perdoá-los, pois, de repente, eles são só isso mesmo!
Até porque, aqueles que não sabem perdoar acumulam decepção, e talvez ódio, por companheiros desleais e ingratos que os traíram.
Há casos extremos em que se chega a ter nojo daqueles que simularam, mentiram, encenaram, se acovardaram e negaram conhecer você, como fizera Pedro, ao se apequenar diante dos guardas negando ser discípulo do Cristo, e que mesmo assim não negou o seu perdão.
Mãos que quando procuraram as suas as tiveram com lealdade, mas que depois, covardemente, se recusaram a apertá-las. Rostos amigos e bondosos que depois presentearam você com a frieza, o silêncio e a indiferença. Enfim, evitaram você e se esquivaram.
“Ah! O covarde que age dessa forma é cem vezes mais criminoso que aquele que vai direto ao inimigo e o insulta face a face”, como aponta Jules Olivier (Paris, 1862). Covardes que ainda tentam agir com os costumes dos bárbaros. Que não sabem que a ingratidão, a indiferença e a vingança são um atraso dos homens que a elas se entregam. Homens que ainda não se conscientizaram do preceito do Cristo ao ensinar: “Perdoai aos vossos inimigos”. Homens que mesmo assim, ainda se recusam a perdoar, como se não fossem cristãos, como ensina Allan Kardec no Evangelho Segundo o Espiritismo.
Parceiros de memoráveis jornadas, mas que contrariaram um dos mais importantes postulados de Lao Tse: “Cuide do fim como você cuida do começo, e não fracassará”.
Mas, afinal, o que leva uma pessoa a se relacionar e confiar em elementos desleais e covardes? Sujeitos que, como aponta Napoleon Hill, são carentes de caráter ou têm deficiência moral? O que leva alguém a se relacionar com criaturas do “tudo para mim”? Que somente se preocupam com os seus próprios interesses? A acreditar em gente fria e má? Elementos que parecem ser co-autores de “O Príncipe” de Maquiavel? Pobres de espírito que até sorriem, mas só o fazem para ironizar, e que ainda devem sorrir ao encenar o roto filme de sua vida, e verem, em algumas cenas, o seu exuberante desempenho no papel de o Homem de Lata, aquele de O Mágico de Oz, o que não tinha um coração. Gente pequena, que dá ao semelhante o mesmo fim que se dá aos velhos cadernos. Habilidosos em usar as pessoas para depois as jogarem num canto qualquer. Há situações em que se chega a confiar em elementos que têm na habitualidade de condutas traidoras e covardes uma das características marcantes de sua personalidade.
Para gente assim, Platão profetiza “... que embora escapem em sua juventude... um dia serão descobertos pelos desígnios da vida... ainda sofrerão o escárnio...”.
Mas creio que devem-se perdoar a todos, até mesmo aqueles que a sua própria alma quer abandoná-los, para que não venha morrer antes do corpo.
Devem-se preparar para perdoá-los, inclusive no dia do grande desprezo. Deve-se saber que não é por maldade que eles não dão mais... É que eles não têm mais nada para dar.
Devem-se perdoar até os venenosos, aqueles que continuam com a crença de que veneno gera sonhos e que estes produzem bons resultados. Mas, por que não perdoar os venenosos? Ah, veneno de cobra não mata dragão, assim falava o Zaratustra do Nietzsche! Mas saiba: Não dê o veneno de volta, pois isso humilhará, e quem humilha não sabe perdoar. Quem humilha tem uma história de comportamento desumano e covarde.
Penso que devem-se perdoar até mesmo aqueles que têm um profundo buraco negro no estômago causado pelo Prozac... Os que dormem mal por causa de sua covardia. Também aos que sorriram de ódio na sua cara, que zombaram de você, que premeditaram a sua morte com a ironia do riso venenoso, aqueles que sabiam que através de sua ira não chegariam a lugar algum.
Não hesite em perdoar também aos que deixaram de ser valentes. Que perderam a coragem e o entusiasmo. Que não honram mais a sua história. Que se deixaram murchar e cair. Que se pudessem, voltariam a ser criancinhas, lá onde circunda o ar puro das matas. Que estão fartos de elogios com segundas intenções. Que são venerados nos cantos escuros. Que têm medo de claridade. Que ainda não se conscientizaram de seu abandono. Que perderam a sua paz. Que são rastreados e procurados por outros motivos. Que hoje estão mais abandonados do que ontem. Que riem à toa. Que se deixam ser montaria. Que são odiados silenciosamente pela multidão.
Esteja sempre pronto para dar as mãos também aos que nem merecem as patas do cachorro morto. Os que insistem em falar como um palhaço buscando migalhas. Que são levados para qualquer canto. Que só servem para depois da refeição, ou na hora da sede.
Perdoe, mas tenha cuidado com os que têm a alma faminta. Aqueles que se apresentam como fantasmas querendo dar a mão a você. Os verdadeiros bois ruminadores, e as vacas, que nem dão água nos seus ubres mirrados.
Mas nunca deseje que os covardes um dia venham a se perguntar: Eu sou necessário à vida? Não, não aja assim, pois isso soa vingança, e vingança é coisa de covardes. Conserve a esperança de que eles um dia venham a refletir: A minha existência é só isso? Qual é o sentido de minha vida? O que eu posso fazer para ser melhor? E ainda, conserve a esperança de que um dia eles deixem de ser fugitivos, que não queiram mais esquecer de si próprios.
Enfim, compreenda e saiba perdoar até mesmo os inimigos que odeiam você, e jamais esqueça de que se deve honrar até o inimigo. Mas, diante daqueles que são hábeis na arte do desprezo e da covardia, é preciso você perdoá-los e desaparecer, afinal, não vale à pena correr o risco de ser mastigado e devorado. Não vale a pena confiar que, por serem pequenos demais, ou por serem só isso, eles não teriam como fazê-lo. Por isso, deseje um inimigo que odeie você, os declarados roedores e ruminadores. Jamais deseje aquele inimigo que despreze e negue você, os exímios vingadores invisíveis.
Perdoem ainda os que vivem sentados nos tronos de lodo. Também os que querem obedecer aos que querem dominar. Os aduladores de uma solidão a dois, que ainda não se encorajaram para fugir para uma solidão a sós, que querem vingar-se a si próprios por serem só isso.
Compreenda a pequenez daqueles que têm instinto de animais. Os que, com os seus focinhos, farejam e depois, de panças cheias, viram-se para o lado e tentam dormir. Compreendam também os que ainda não sabem para que nasceram. Os que querem ir embora, mas não sabem para onde. Os que têm um bicho roendo o seu coração. Os que não conseguem ficar doces. Os que nem sabem que, a qualquer momento, poderá vir uma forte ventania que derrubará as frutas bichadas. Os que, ao olharem no espelho, se depararão com o bicho de sete cabeças. Os que um dia saberão que os seus companheiros de travessia estão envergonhados de terem feito viagens em sua companhia. Perdoem ainda os que têm tudo para sofrer muito mais ainda. Os que nunca acharão o que não se perdeu. Os senhores da discórdia interior. Os que são comprados como quiabos em cestos. Que dentro em breve poderão se envergonhar de si mesmos. Que ainda não aprenderam a lição de que se deve fazer guerra para conquistar a paz... Nunca se acovardar.
Lembrem-se também dos que se alimentam com conversas estéreis. Aqueles que pensam que o sentido da vida está em se ter um queijo tipo 24 horas. Os que, como colegiais, acreditam no poder do glamour daquilo que é bonito e comovedor, mesmo que tenha vida curta. Os que constroem as muralhas de seu futuro derrubando as muralhas alheias.
Da mesma forma, perdoem também aos que, covardemente, foram compelidos a mudar o conceito a seu respeito. Aos que receberam ordens para desprezá-lo. Porém, é importante você saber que este desprezo pode revelar uma empatia silenciosa, afinal, não se despreza os empáticos, mas sim os antipáticos. Entretanto, é também importante você saber que só os covardes têm o dom de desprezar os empáticos. Somente eles têm o dom extraordinário de desprezar o que se quer. Ou, como aponta Lou Marinoff, quanto mais se quer algo, mais as pessoas têm o dom de atrair ou repelir, afinal o oposto do querer muito não é o ódio, mas sim a indiferença.
É preciso saber que os covardes são pequenos demais para se pronunciar. Mesmo assim, dê as suas mãos, e não as lavem. Agindo assim, é certo que elas ficarão sujas, mas a sua alma estará limpa. Não tenha vergonha da vergonha do outro, isto não basta. Ajude-o.
Devem-se perdoar até mesmo os náufragos das piscinas cheias de ratos, e que nem sequer aceitam ajuda. Os que acham que por trás de uma boa ação sempre há interesse. Entenda, eles são pequenos demais. Aqueles que vêem a ajuda como vingança ou como humilhação. Que retribuem os benefícios recebidos com uma disfarçada crueldade. Que conseguem transformar um favor recebido em ressentimento. Também os que anseiam por exterminar os que presentearam você. Que têm fome do mal. Os que secaram o seu sorriso. Enfim, esqueçam os maldosos e os desonestos.
Tenham compaixão diante daqueles que não conseguem perdoar a si próprios. Perdoem até mesmo aqueles que têm pacto com o diabo, os covardes que brincam de crucificar as pessoas, os que não sabem amar a Deus, que abandonaram a fé, os cultos, os templos, aqueles que têm vergonha de orar, e terminaram cheirando mal e vivendo na aflição em nome de sua vingança.
Também aos que se calaram diante de você, pois eles jamais se encorajarão para exalar uma disfarçada fumaça de socorro. Perdoe-os, não os queira ver como cinzas. Veja-os como as flores vermelhas de janeiro que eles tanto temem. Perdoe, mesmo diante de sua mudez e de seu medo.
Faça o bem, mesmo diante dos que são indignos de você, daqueles que nem cheiram como os porcos. Os que têm a delicadeza e a doçura envenenadas. Os escravos dos tiranos. Aqueles que o seu amor ao próximo é o vosso mau amor por vós mesmos, como falava o Zaratustra do Nietzsche, lá do alto da montanha.
Mas, contrariamente a Nietzsche, você não deve se guardar dos pequenos homens, mesmo sabendo que estará correndo o risco de conquistar um inimigo se este vier a perceber que você não é da altura deles, afinal, inimigos querem amigos à sua altura. Por isso, aquele que se eleva, parecerá menor aos olhos dos que não têm asas para voar. Mas, voe assim mesmo, porém, cônscio de que o sentimento de inferioridade pode desencadear uma invisível vingança.
Mesmo sabendo que eles são indignos de você, que poderão sugar todo o seu sangue, odiarem e esconjurar você, mesmo assim, perdoe.
Por serem pequenos demais, os covardes nem sabem o que é ter um amigo. Mas saiba você que, nas suas profundezas, eles anseiam por um amigo demasiadamente leal, pois a conquista de um amigo de verdade revelará o que eles gostariam de ser. O desejo daqueles que vivem no labirinto da covardia é poder pular por cima de sua pequenez. Entretanto, por serem só isso, agridem silenciosamente as pessoas e as transforma em inimigos. Mas, tudo isso, é somente para esconder a sua vulnerabilidade.
Acolha os covardes que os seus focinhos enlameiam a fonte da vida, mas evite beber a água da mesma nascente. Ah, ainda bem que há uma fonte longe demais dos covardes! Perdoe-os, mas não se aqueça na mesma fogueira, ela poderá estar envenenada. Também aqueles que no máximo têm espírito de porco.
Acolha também aqueles que não têm meta para o dia seguinte, os que apenas têm projetos de curta duração. Também aos que conseguem transformar os seus heróis em objeto de raiva. Encoraje-os: Não os deixem matar os ídolos que moram em sua alma.
Enfim, mesmo diante do mal da covardia que fizerem a você, mesmo diante dos homicidas, dos sangradores de almas, daqueles que transformaram o seu afeto em desafeto, faça o bem assim mesmo, nem que isto soe como humilhação.
Abra o círculo do seu sol para acolher os covardes. Aqueles que têm um gosto amargo na boca, os amantes da náusea, os cheiradores de esterco. Os que deveriam ter patas, os que o seu cérebro paralítico não responde. Os que são maquiados pela máscara natural de seu rosto, que por si só já assustam os passarinhos. Os que pensam ter cara de anjo. Que bastam por si só. Que nem precisam de parceiros. Os corujas que não acreditam na lua. Os que deixaram de crer em si. Que se dizem inocentes, mas que só sabem praticar o mal. Que comeram todo o queijo posto à mesa. Que, mesmo com azia, ainda querem mais queijo. Que não gostam de goiabada. Que exalam um fedorento cheiro de covardia.
Acolha até mesmo os inocentemente perigosos. Trituradores. Venenosas aves de rápida. Águias. Os que vêem Deus como subterfúgio. Que no seu anzol sempre vem um sapato velho cheio de gosma.
Perdoem até os que se vangloriam: Ah, estou vingado! Os que ainda não se conscientizaram de que esta é a auto-recompensa dos apequenados. Os que têm o coração vingativo. Os que onde pisam, nem sequer nasce grama. Onde jorra o seu suor, enlamece. O que desejam, murcha. Que a sua voz ecoa vingança. Que a sua ação traduz traição e mágoa. Que do brilho dos seus olhos reluz a punição.
Ore pelos que andam ao lado dos vermes. Também ore por aqueles que, se perderem o mal, perderão a sua essência. Os que cuspiram no prato. Os que terão que andar mil quilômetros para atravessar a rua. Os que rodam, rodam, rodam e rodam e nem chegam ao mesmo lugar. Ajude-os, tire a faca de suas mãos. Tire, mas, tire mesmo! Se necessário, arranque os dentes destes predadores. Venda os seus olhos. Por fim, tire a voz dos que pensam baixinho, os que têm medo da voz do seu pensar, que querem dar apenas mais um único uivo com os seus pensamentos. Mesmo assim, não titubeie, ajude-os, fique sob o mesmo sol, mas nunca de costas.
Não queira mal aos malvados, aqueles de carícias felinas, que pensam que tudo podem fora da racionalidade, os que têm que se abaixar para adentrar.
Companheiros, não abandonem os covardes, de quem todos falam, de quem ninguém pensa. Que dormem de olhos abertos. Ajude os hipócritas autenticados, aqueles que não suportam uma corrente de ar puro, os verdadeiros animais domésticos. Que o nojo impede de que lhes pisem, os escarrados, que têm os joelhos lisos por não saberem se curvar. Os falsamente delicados. Ímpios, breves enganadores, sonhadores da mentira, poderosos rastejadores, que, mesmo sem gostar, se aquecem nas caipirinhas, e, por covardia, nem cospem no chão.
Encorajem os serviçais a darem um sentido à sua vida, também às rãs e os sapos dos pântanos urbanos, sem se esquecer de perdoar às traíras dos diques.
Incluam na lista dos perdoáveis os venenosos que estão com a voz fraca de tanto mendigar. Os que vivem como avestruz com a cabeça enfiada na terra, que acham que tudo está muito bem, que pediram a sua cabeça, mas que foi concedida a sua alma.
Perdoe também os ladrões, mas evite o cuspe, a saliva, e a baba dos covardes. Ajude os malvados, e da mesma forma, os seus adestradores. Os que não sabem o caminho de casa. Que permitem que pulem por cima de si.
Ó meus amigos, eu sei que vocês sabem que para os porcos, tudo parece farelo, por isso, sede clementes e ajude também aos porquinhos, os que têm desejozinhos, conquistazinhas, trabalhozinhos, amiguinhos, parceirozinhos e companheirozinhos. Enfim, os que têm tudo “zinho”. Não os deixem morrer perto da aguada, se preciso for, puxe-os pelo braço e espantem os urubus, e as moscas. Em nenhuma hipótese, queira ser a nova do versão do Friedrich Nietzsche, que diante deste quadro seria parafraseado pelo seu Zaratustra ao questionar: “Sou cruel, meus irmãos? Mas eu vos digo: àquele que cai, deve-se, ainda, dar-lhe um empurrão!”
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde! Você ainda se lembra do dia em que você apunhalou aquele camarada que estava caído no chão? Ah, covarde, porque dissestes que ele era seu amigo, e depois o negou? Foi assim que o Cristo lhe ensinou? Ele chegou até a ficar amigo do ladrão para mudar o seu coração.
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde! Aprende-te a lição de que os felizes não são maus! Ah, covarde, queira não enganar a mais ninguém, já o fizeste bastante! Ah, covarde, tu já tens muito ardil contra ti! Ah, covarde, não queira que a sua verdade seja a náusea! Ah, covarde, tudo em ti é mentira, mas agora, chega! Ah, covarde, cuidado com a revolta das almas daqueles que você matou! Ah, covarde, chega de desdém, tire o véu que oculta a sua vergonha! Ah, covarde, porque te desprezastes?
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde, não queira que as vacas mujam de ti! Ah, covarde, também serão perdoados os lascivos, mandriões, muares, mascarados e esquecidos! Ah, covarde, não faça do mal a sua força! Ah, covarde, não queira ser uma obra falsa! Ah, covarde, cuidado para não tropeçar ao saltar do cavalo! Ah, covarde, mate o seu animal interior! Ah, covarde, aprenda a apoiar-se em suas próprias pernas!
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde, como um cão que reencontrou o seu dono, você voltou para o canil! Ah, covarde, o que você tem feito de útil com a sua liberdade? Ah, covarde, encoste o seu nariz na velha árvore da mata verde, e sinta o cheiro de sua consciência! Ah, covarde, peça com o coração: Vinde! Ele virá. Ele acolhe também os opróbrios.
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde, já morri, o que mais queres? Ah, covarde, renasci! Ah, covarde, aproxima-se o grande dia! Ah, covarde, não me toques mais, sou muito puro para você! Ah, covarde, o dia já clareou, deixe de sofrer! Ah, covarde, cuidado para a sua dor não se transformar em eterno prazer! Ah, covarde, deixe de mendigar! Ah, covarde, não esbanje o que você não tem.
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde, deixe de ser velhaco, aleijão e obtuso! Ah, covarde, deixe de rir ao matar! Ah, covarde, que demônio brabo é este que mora em você? Ah, covarde, porque a sua inocência é escassa de bondade? Ah, covarde, o que restou de ti? Ah, covarde, porque ainda querer o último pecado?
Como ser humano em evolução, evite dizer: Ah, covarde, ainda bem que tudo passa, mas nem tudo passará diante da luz! Ah, covarde, porque te mostras tão dócil ao ponto de causar enjôo? Nojo, nojo, nojo... Vômito, vômito, vômito...! Ai de ti, covarde! São tantas curvas no rio da vida. Mas, perdoe mesmo assim, companheiro, não abandone ninguém, esta é a lei maior.
Ao covarde, resta querer sair do labirinto. Fique de pé, covarde! O mundo aguarda por você, renovado. Não esqueça de que tudo morre, de que tudo renasce. Não creia somente no fermento que apenas incha. Lembre-se: Tudo vai, e tudo volta. Tudo faz, e tudo se desfaz e refaz. Mas, ande, e ande logo, livre-se do mal que atacou você, e escarre imediatamente, escarre e escarre a sua gosma salgada. Sim, é certo que o seu passado está apodrecido, mas da lama nascem lírios. Cuspa três vezes, e se preciso for, cuspa trinta vezes. Trezentas e trinta vezes. Uaght! Deixe de farsa, Uaght!
Mas, companheiro, como ser humano em evolução você precisa se dar mais. Você precisa saber que entre as madeixas dos cabelos dos covardes, há uma fenda, e que por esta fenda entra luz. Pois é, companheiro, perdoe, e tente levar luz aos labirintos do vazio existencial do covarde. Diga que ele não nasceu para ser só isso! Diga assim até para os agourentos. Os falsos. Tortos. Monstruosos. Frouxos. Mornos. Bestas. Diga ainda para os cachorros solitários e aos que tropeçam nos cachorros mortos. Também àqueles que pisam em suas vítimas, e vão chorar. Aos que obedecem a um idiota, e ainda jogam pragas.
Enfim, não se entristeça por ter vivido ao lado de um covarde, apenas se envergonhe. Ah, isso já passou! Só ficaram as cicatrizes. Agora, viva a sua solidão, que é demasiadamente melhor do que o abandono. Viva o seu silêncio, jamais a covardia.
Encoraje-se e perdoe, mas, priorize o perdão para os ruins. Para estes, mesmo você estando certo, diga-os que você errou. Saiba: Somente os corajosos se comportam assim. Diante dos ruins, dos que acreditam que a sua carinhosa mentira seja uma verdade, tente evitar até mesmo as pequenas vinganças. Deixe as pedras chorarem por vergonha de si, mas não negue o seu lenço. Agindo assim, você não andará somente para frente, mas também para o alto.
Há um autor desconhecido que nos ensina a seguinte lição:
“As pessoas são pouco razoáveis, ilógicas e egocêntricas; Ame-as assim mesmo.
Ainda que faça o bem, será acusado de ser egoísta e calculista; Faça o bem assim mesmo.
O que leva dias para construir pode ser destruído em uma noite; Construa assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor de si, e levará uma bofetada em cheio. Dê ao mundo o que tiver de melhor assim mesmo”.
Enfim, companheiro, perdoe, mesmo que você venha a afirmar: “Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”. (Friedrich Nietzsche).
|
|
 |