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Vejam a seguir três capítulos completos:

Labirintos da Minha Vida

Labirinto do Contágio Emocional

Labirinto da Covardia e do Perdão

 

LABIRINTOS DA MINHA VIDA

"Aquilo que não me destrói fortalece-me"
Friedrich Nietzsche


Após folhear o almanaque da minha vida, vi muita coisa que me fez corar, por desacatar os meus valores mais importantes e por perturbar o meu sono. Assim, tive que bradar em razão de uma fisgada na minha consciência.
“A minha vida é só isso? Eu só mereço isso? Tudo que conquistei foi somente isso? As pessoas só têm isso para me oferecer? Eu só tenho isso para dar às pessoas? O meu poder de visão é só isso? O meu trabalho é só isso? Parece que tudo que eu tenho é pela metade! Se for só isso, não serve para mim!”
Como protesta Chico Buarque, na canção Fado Tropical, também não aceitarei essa “sentença que se anuncia bruta”. Da mesma forma que na canção Roda Viva, não quero mais me sentir como “quem partiu ou morreu”. Eu não quero só isso! Não quero ser só isso!
Para robustecer ainda mais este sentimento de irreverência pela minha vida, que parecia conter alguma coisa que me apertava o peito e provocava uma dor que queimava por dentro, recorri a outro Chico, e me deparei com a visão do mestre Chico Xavier.
A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.
A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos... Tudo bem!
O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... É amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos.
Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos.
Defrontei-me também com o ponto de vista de Nelson Mandela que preconizou, com todo o seu poder de visão, no discurso de posse na presidência da África do Sul, em 1994: “O nosso medo mais profundo não é o de sermos incapazes. O nosso medo mais profundo é o de que somos poderosos além de qualquer medida. É a nossa luz, e não a nossa escuridão, o que mais nos aterroriza [...]”
Confesso que esses ensinamentos levaram-me a ver uma luz no fundo do túnel dos meus labirintos e comecei a mudar. Acendeu o sinal de alerta e passei a dar algum sentido concreto à minha vida, e este passou a me fascinar. Não vou negar, no entanto, que o impulso mais forte rumo à autotransformação brotou a partir do momento em que deixei de sonhar com aquilo que não existia e de me contentar com o “mais ou menos”.
É certo que, para chegar nesse estágio, tive que conviver com a dor que me queimava o peito. Tive que viver como um exilado, conviver com os meus sussurros, como alguém atracado no cais. Tive que perambular muito pelos meus labirintos, na tentativa de conhecer os limites da minha existência. Comecei por respeitá-los e a jamais temê-los. Eu não poderia permitir que o medo me imobilizasse a buscar, com sabedoria, um sentido para a minha vida. Como encoraja Shakespeare, não devemos nos acovardar, pois “[...] os covardes morrem mil vezes antes de suas mortes; o valente só experimenta a morte uma vez [...]”.
Independente de ter consciência de que eu apenas estava começando a identificar os meus limites, não hesitei em deixar de lado alguns conceitos equivocados que tinha ao meu próprio respeito. E comecei limpando a maquiagem de alguém que eu pensava ser. Alguém que se sentia imenso, que pensava até poder andar nu; que podia sumir no mundo quando bem quisesse, pois deixaria saudades cativas.
Penso até que eu era uma modelagem exemplar da prepotência em pessoa. Por pensar que eu sabia o que estava fazendo, que o meu ego podia tudo, não percebi que toda a minha vaidade poderia me conduzir às cinzas que o vento levaria. Eu não podia mais alimentar o meu ego com coisas mesquinhas ou com obediência cega e viver como um contraventor da minha existência. Eu teria que entender, como Sócrates, que “[...] a vida que não é examinada não vale a pena ser vivida”. Eu teria que aceitar o ensinamento de Lao Tse: “[...] quando as coisas chegam no auge do seu vigor, começam a declinar.”
Confesso que fazer isso foi muito constrangedor, pois descobri em mim algumas coisas que me incomodavam como ser humano. Tinha, entretanto, que ser assim; não tinha outro jeito. Afinal, eu procurava sair de um labirinto sem ter o faro de um dobermann.
Como alguém obrigado a ser feliz, passei a investir na autotransformação, sem abrir mão de estar conscientemente fazendo novas viagens para desvendar um admirável mundo real, que pudesse dar mais consistência ao sentido da minha vida.
Por que eu sentia imenso vazio existencial, mesmo sendo uma pessoa com tantas atividades? Embora ativo e com muitos compromissos, eu sentia um enorme vácuo existencial. Eu necessitava encontrar uma nova trilha para viver. A priori, comecei por examinar as minhas convicções e conclui que havia muitos mitos contidos nelas. Percebi também que me faltava conscientização para compreender que ninguém deve ser o centro da vida de ninguém. Creio que atribuí muita importância a companheiros desprovidos dos fundamentos da empatia.
É certo que eu sempre soube perdoar. Por isso não acumulei decepção, nem tampouco ódio por companheiros desleais e ingratos, por parceiros que simularam, encenaram, acovardaram-se e negaram me conhecer, como fizera Pedro, ao se apequenar diante dos guardas, negando ser discípulo do Cristo. Por mãos que, em tempos não muito distantes, quando procuraram as minhas, as encontraram com lealdade, mas depois se recusaram a apertá-las. Rostos amigos e bondosos, que depois me presentearam com o disfarce, a frieza e a indiferença. Enfim, me evitaram covardemente e se esquivaram.
“Ah! O covarde que age dessa forma é cem vezes mais criminoso que aquele que vai direto ao inimigo e o insulta face a face”, como aponta Jules Olivier. Pobres covardes, que ainda tentam agir com os costumes dos bárbaros; que não reconhecem a ingratidão, a indiferença e a vingança como o atraso dos homens que a elas se entregam. Seres humanos que ainda não se conscientizaram do preceito do Cristo ao ensinar: “Perdoai aos vossos inimigos”. Homens que, mesmo assim, ainda se recusam a perdoar, como se não fossem cristãos. Parceiros de memoráveis jornadas, que contrariaram um dos mais importantes postulados de Lao Tsé: “Cuide do fim como você cuida do começo, e não fracassará.”
Penso também que o meu vazio existencial deveu-se ao fato de ter esperado demais de pessoas que não conheciam a essência da compaixão e do amor. Só mais tarde, aprendi com Krishnamurti que “[...] o nosso problema está no fato de somente conhecermos sensações [...] mas não o amor”.
Por que eu era assim? Porque confiei e convivi com pessoas que tinham deficiência moral? O que leva um homem a se relacionar com sujeitos que têm desvio de caráter? A se relacionar com indivíduos que, ao perceberem a iminência do naufrágio, somente se preocupam em cuidar do seu bote? Somente se preocupam com os seus próprios interesses? Pessoas sem compaixão?
Convivi com elementos que pareciam coautores de O Príncipe de Maquiavel (1469-1527). Criaturas que até sorriam, mas só para ironizar. Pobres de espírito, que ainda devem sorrir ao encenar o roto filme da sua vida e verem, em algumas cenas, o seu exuberante desempenho no papel de o Homem de Lata de O Mágico de Oz, aquele que não tinha um coração.
Como se faz com os velhos cadernos, depois de me usarem, também me jogaram num canto qualquer. Enfim, já cheguei a confiar em elementos que tinham na habitualidade de condutas ingratas uma das características das suas personalidades. Contudo, mesmo sabendo que foram ingratos comigo e contrariaram a profecia de Platão, que diz “[...] que embora escapem em sua juventude [...] um dia serão descobertos pelos desígnios da vida [...] ainda sofrerão o escárnio [...]”, ainda assim, hoje, eu não lhes quero mal, pois já compreendo a sua pequenez.
Passei a não querer mais chegar aonde somente os meus pensamentos poderiam chegar. Defini uma forma de lidar com eles, agora, com muito rigor. Para isso, procurei mudar radicalmente os meus modos de pensar e, consequentemente, as minhas atitudes. Aprendi com os ensinamentos chineses que, se todos os dias arrumamos os cabelos, por que não os pensamentos?
Humildemente, eu compreendi que, se houvesse sabedoria em mim, mesmo sem querer ser uma pessoa mais ou menos, eu teria escolhido caminhadas mais seguras. Teria evitado tantos atalhos! Saberia controlar a minha ansiedade até encontrar a hora certa de me reconciliar com a vida; teria me empenhado mais para conter o meu insaciável desejo por novas experiências; teria sensibilidade para perceber que poderia estar bem ao meu lado tudo o que eu procurava na vida.
Conscientizei-me definitivamente do postulado de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer.” Diante das injustiças humanas, passei a me prevenir e a me educar. Não quero mais mudar aquilo que eu não posso mudar, mas corajosamente mudar aquilo que eu posso.
Por que eu sofria? Esse questionamento me levou a aprender a avaliar melhor os meus sofrimentos. Percebi que muitos deles eram provocados por mim mesmo. Vi também que muitos não valiam a pena. Assim, deixei de me esmagar por coisas sem sentido ou absurdas e aprendi a tolerar os sofrimentos que valiam a pena.
Passei a reavaliar essa história de ter que viver o momento presente como se ele fosse o último. Vi que isso só valia a pena se não fossem momentos mais ou menos, que contivessem coisa boa, verdadeira, consistente e duradoura.
Da mesma forma, passei a não mais permitir que a minha visão de futuro pudesse complicar o meu momento presente, desde que esse contivesse essência. Assim, tive que assumir o comando da minha vida, e isso só foi possível quando pude definir um sentido real para as coisas. Tive ainda que reanalisar as motivações que dariam mais sentido à minha vida, e vi que elas sempre estavam lastreadas no crescimento verdadeiro.
Como aponta Wayne W. Dyer, passei a compreender que, ao agir assim, eu não mais necessitaria da
[...] aprovação de ninguém para os meus atos, sob pena de ter que afirmar que a opinião do outro era mais importante do que a minha própria. Quando a busca de aprovação se transforma numa necessidade, você entrega uma parte de si mesmo à outra pessoa.
E se o outro não aprovar o que quero, como ficará o sentido da minha vida?
Da mesma forma, entendi que o nosso valor próprio não pode ser aquilatado pelos outros. Valemos porque assim o afirmamos. “Se o seu valor depende de outrem, você se avalia por padrões alheios”.
Conscientizei-me de que, mesmo nas ocasiões em que fui preterido, isso não significou que o meu valor houvesse sido reduzido. Agora, seja o que for que os outros pensem ou falem, não terá mais efeito sobre mim. É como profetizam o Padre Fabio de Melo e Gabriel Chalita: “Eu, visto pelo outro, nem sempre sou eu mesmo. Ou porque sou projetado melhor do que sou ou porque projetado pior. Não quero nenhum dos dois. Eu sei quem eu sou. Os outros me imaginam.”
Aprendi que o sentido da minha vida é a felicidade. Assim, não mais viverei buscando o prazer como um fim em si mesmo. Hoje sei que aqueles que priorizam o prazer correm o risco de conviver ao lado da dor ou, como ensina o estoicismo, que o prazer pode fazer criar apego às coisas, até mesmo às coisas negativas. Não hesito em afirmar que, para alcançar essa compreensão, tive que internalizar os ensinamentos de Aristóteles, ao mostrar que “[...] a felicidade é mais do que o prazer, a diversão ou o entretenimento”. Tive que me empenhar para compreender que “[...] tudo que pode ser melhor para mim está além de qualquer ser humano”, como argumenta Sêneca.
Passei a pensar criticamente quando estivesse procurando novos caminhos para a minha vida. Hoje, tenho consciência de que necessito mudar ainda mais as minhas convicções. Não quero mais engrossar a fileira dos amantes do sofrimento.
Afinal, o que é bom para mim? O que é mal para mim? O que é certo? O que é errado? Essas são pequenas perguntas que merecem grandes análises, sob pena de cairmos no abismo e só percebermos quando estivermos lá. É como orienta o Papa João Paulo II: “Muitas pessoas tropeçam pela vida até a beira do abismo sem saber aonde estão indo [...]” Portanto, é preciso muita orientação para que a travessia seja bem feita.
Ao aprender que eu sou o resultado das minhas escolhas, passei a ser extremamente criterioso com elas. “Passei a ser egoísta sabiamente”, como ensinam Dalai Lama e Cutler. Respeitarei, mas, daqui para a frente, quero distância daqueles apaixonados por migalhas existenciais; daqueles que um dia fatalmente se perguntarão: Eu sou só isso, uma criatura que tem um enorme vazio existencial e nem sequer consegue ver a profundidade do seu poço de lamentações futuras?
Como Einstein, também aprendi a “[...] recusar-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre (a rigor, ninguém é livre), e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas”. Com Saint-Exupéry, que dizia “[...] conhecer somente uma liberdade, e que essa é a liberdade do pensamento”, passei a não mais me iludir, nem tampouco me lamentar quanto à liberdade. Com Martin Buber, passei a entender que “Ficar liberto da crença de que não existe liberdade é, na verdade, ser livre.” Não dá para não crer que “[...] o ser humano estará sempre acorrentado”, como sentencia Jean-Jacques Rousseau.
Mesmo na condição de eterno aprendiz, já defini um novo sentido para a minha vida e lutarei por ele. Hoje tenho ideais concretos, que dirigem as minhas ações e orientam os meus pensamentos. Daqui para a frente, procurarei ouvir e compreender conscientemente, com prévia análise do perfil de cada personagem envolvido no filme da minha vida. Tudo em função dos meus novos valores e das minhas crenças reformuladas. Nunca mais em função de comportamentos prisioneiros e autodestrutivos; afinal, eu não nasci para ser só isso.


LABIRINTO DO CONTÁGIO EMOCIONAL

“O nosso problema está no fato de somente conhecermos sensações [...] mas não o amor”.
Krishnamurti


É razoável que possamos definir uma nova compreensão a respeito das convivências. Aqueles que se relacionam com amor devem ter como missão abrir mares, para que o outro possa atravessar; devem ter atitudes voltadas para acrescentar à vida do outro; agir para que o outro possa ser ainda melhor do que sempre foi; focar no crescimento individual do outro; respeitar o mundo particular do outro; fazer tudo para preservar a condição de ser humano, a história e os valores irrenunciáveis do outro.
Nas convivências equilibradas, não cabem invasões nem tentativas de reduzir o território do outro. Devemos respeitar os limites e sob nenhum argumento avançar sobre eles nem nos permitir roubar um pedaço do outro. A individualidade do outro é sempre preservada e nunca arrebatada.
Nessas relações, a entrada é sempre pela porta da frente. A identidade do outro é aceita como um dom supremo. As fotos e as flores da vida podem ficar sobre a mesa. Não tentemos afastar uma das partes da sua história, daquilo que a completa e que possa representar registros valiosos das suas caminhadas. Nenhuma das partes tem o direito de estabelecer como o outro deve se comportar. A convivência deve ser de forma emocionalmente equilibrada, baseada na completude, na ajuda mútua e na ação para resgatar a individualidade do outro.
Por mais preciosa que seja, uma parte não tem o direito, consciente ou inconscientemente, de contagiar a outra com as suas emoções, particularmente aquelas pessoas mais susceptíveis, mais impressionáveis, que facilmente vão às lágrimas ou ao sorriso. Enfim, pessoas que são mais prontamente movidas pelos sentimentos alheios.
Como mostra Nathaniel Branden:
As pessoas impressionáveis correm o risco de preencher todas as expectativas dos outros e, no entanto, falhar em relação às suas próprias... Poderão conquistar honras e concluir que não chegaram a nada... Serem adoradas por milhões e despertar todas as manhãs com uma nauseante sensação de fraude e vazio.
São pessoas que vivem para causar uma boa impressão nos outros, que buscam a felicidade em todos os becos escuros e sem saída de seus labirintos, menos dentro delas próprias.
Ninguém tem o direito de persuadir pessoas para que elas abram mão de parte do que foi construído antes da sua vinda. Quem assim se comporta ainda não conhece a essência do amor, como ensina Krishnamurti, ao afirmar: “[...] o nosso problema está no fato de somente conhecermos sensações [...] mas não o amor.”
Sobre o amor, Wayne W. Dyer ensina que “É a capacidade e disposição para permitir que aqueles que você ama façam suas próprias escolhas, sem insistir para que o satisfaçam”. Amar, antes de tudo, é confiar e lutar pela liberdade do outro. É abrir estradas para que o outro se ache, para que o outro nunca se perca. Fora disso, não é amor; são apenas sensações sentimentais ou mediocridade amorosa.
Não dá para acreditar nas convivências pautadas pelo poder da influência ou pela imposição, mesmo que inconsciente, em que uma das partes queira ser escultora da imagem do outro. Afinal, não é possível esquecer que a atenção do outro foi despertada exatamente por um jeito original de ser.
Convivências saudáveis e duradouras são aquelas que têm o poder de estimular o crescimento individual do outro para somente depois o crescimento do “nós” tomar lugar.
Ninguém quer ter o seu território ou a sua história subtraída. Não cabe domínio, nem tampouco represálias por falhas cometidas; afinal, o que foi feito não pode ser mudado, pois tudo o que resta é o perdão. Se não for assim e o apego persistir, será negativo até mesmo para o desenvolvimento pessoal. Portanto, vale indagar-nos: esse sofrimento vale a pena?
Bhagavad Gita diz: “[...] essas relações que provocam frio e calor, dor e felicidade, vêm e vão, não são permanentes. Suporte-as com bravura [...]”. Qualquer relação que se preze deve ser lastreada na independência e não na dependência. Não cabe domínio e muito menos submissão. No entanto, o risco é iminente. Somos vulneráveis aos contágios emocionais que poderão mudar o sentido da nossa vida para pior.
Aprofundemos um pouco nesta questão. Vamos recorrer a Carl Jung para desenvolver a primeira parte da nossa parábola sobre a peça protagonizada pelo envolvente e pelo envolvido. A segunda parte está no capítulo deste livro intitulado Labirinto dos Relacionamentos.
Como registra Padre Fábio de Melo, na sua humanizadora obra Quem me Roubou de Mim:
Inicialmente será dócil, cortês, gentil e usará de todas as artimanhas para que a sedução seja bem-sucedida... Ele o seduz com gentileza, atenção. Não cobra pelas primeiras porções, porque sabe que a vítima precisa ser conquistada. Depois de firmada a dependência o que se vê é [...] O outro exige o que não é direito seu exigir. Ultrapassa os limites que deveriam ser preservados [...]
Entendo que é possível ir além do afirmado por Padre Fábio e sustentar que, nessa condição, uma pessoa não tem e nem precisa ter atitudes voltadas para acrescentar nada de forma consistente à vida do outro (agora envolvido), e nem age para que esse possa ser ainda melhor do que sempre foi.
Quando a sedução é colocada em ação, o objetivo é contagiar o outro, que passa a ser explorado emocionalmente; e o ataque se dá estrategicamente nos seus pontos fracos. Aqueles que não resistem a abalos emocionais só reforçam as ações do envolvente. Ele sabe que o envolvido tem medo das perdas. Todo envolvido permite que o envolvente estabeleça o seu ritual de vida; aceita o rastreamento; deixa que o vazamento emocional do outro inunde a sua vida; só consegue chorar no banheiro, mesmo quando percebe que teve de abrir mão do que já era seu; deixa-se levar por palavras mágicas, por embalagens surreais; sente-se atado por qualquer lacinho de fita vermelha e nem tem iniciativa para desatar o nó; permite o caos emocional; é omisso quanto à invasão da sua privacidade; permite a banalização dos seus sentidos e acha que está tudo bem; deixa que arranquem a mais preciosa rosa do seu jardim; não reage se cortarem os seus laços de amizades; permite que arranhem a sua alma; curva-se diante dos afetos em detrimento da razão; não tem coragem para pedir socorro e às vezes pensa que nem precisa; tem medo de ser deixado, ainda que a relação seja mesquinha.
O envolvido pode passar até a gostar e se condicionar ao acorrentamento emocional. Talvez até tema a liberdade. Quando em liberdade, pode querer voltar para a prisão emocional. Às vezes, chega até a internalizar que tudo isso vale a pena. Chega a afirmar que sabe fazer escolhas e não permite opinião contrária. O envolvido é escravo de seus desejos e nem pensa em reduzi-los; pode se esquecer de crescer como ser humano e profissionalmente; sonha em ser feliz para sempre; acredita em contos de fada; projeta no outro o sentido da sua vida; nem quer saber do tempo e aonde quer chegar; vive bem longe de si, mas acha que se encontrou. Enfim, o envolvido é dominado, mas não concorda com isso.
Sob pena de vir a sucumbir, a parte dominada tem que dar o seu grito de liberdade: Chega, assim eu não quero! Abaixo a servidão conjugal! Isso é relação de aluguel.
Mas não dá para não afirmar que inícios arranhados normalmente redundarão em finais dolorosos, salvo nos casos em que as partes envolvidas estejam num elevado grau de maturidade e serenidade.
É claro que situações assim normalmente ocorrem quando uma das partes inicia cedendo as suas preferências de cor e sabor, entre outros, colocando-se em segundo plano até vir a ser envolvida e perder a sua individualidade em nome da paixão.
Como argumenta Epictetus, tutor do imperador Marco Aurélio, que viveu entre os anos de 55 a 135: “Se sempre acontece de você se voltar para querer agradar a outra pessoa, certamente você perdeu o seu plano de vida [...] Apegue-se somente a coisas que estejam inteiramente dentro do seu poder.”
Demonstrar respeito é louvável, ainda mais quando o objetivo estiver voltado para uma boa convivência com os outros. Mas não é necessário ser submisso. Por que colocar o parceiro no altar? Por que ajoelhar-se? Por que humilhar-se? Para o bem de uma relação, basta ter maneiras e respeito próprios, e isso não requer que nos curvemos, que aceitemos tudo, que demos tudo... A partir daí, nada mais faz sentido.
Assim, nada devemos fazer ou dizer se isso vier a nos depreciar. Agindo dessa forma a nossa força e o nosso valor desaparecerão e nada mais seremos do que um precioso objeto de estimação. Nessas circunstâncias, Ayn Rand ensina que “[...] é preciso agir imediatamente para diminuir o prejuízo, protegendo a si mesmo, nem que seja através do rompimento. Devemos aprender que é melhor o rompimento pelo motivo certo do que a união pelo motivo errado”.
Mas é preciso saber que a dor também tem o seu lado bom, e o aprendizado é uma das suas facetas. Só a distância nos ensina a comparar, a ver beleza no que não víamos e, às vezes, a dar mais valor ao que perdemos.
Outra coisa importante é saber que não temos o dever de partilhar com o outro tudo o que sentimos e experimentamos. A nossa privacidade e a nossa história têm que ser preservadas e respeitadas; caso contrário, seremos um dependente, um ser acometido pelo contágio emocional.
Não é nosso o papel de promover a felicidade do outro; a nossa missão é o companheirismo leal e acolhedor. Portanto, se alguém estiver chorando ao nosso lado, não hesitemos em ser solidários, mas não é necessário que nos derramemos em lágrimas.
Dalai Lama profetiza que “[...] o amor romântico pode afetar nossa evolução espiritual mais profunda [...] Não se pode vê-lo como algo positivo. É algo inatingível, baseado na fantasia e pode, portanto, ser uma fonte de frustração”.
Enfim, temos que ser donos das nossas próprias emoções. Fujamos dos amores inventados, como se fugíssemos de bombas. Aliás, ambos têm o mesmo efeito devastador sobre a vida... E talvez sobre a alma.


LABIRINTO DA COVARDIA E DO PERDÃO

“Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.”
Friedrich Nietzsche


Parte I
Como encoraja Shakespeare, não devemos nos acovardar, pois “[...] os covardes morrem mil vezes antes de suas mortes; o valente só experimenta a morte uma vez...”. No entanto, como seres humanos em evolução, devemos compreender que, mesmo sabendo que algumas pessoas foram demasiado covardes conosco, não devemos querer-lhes mal. O máximo que podemos fazer é compreender a sua pequenez e perdoá-las, pois, de repente, elas são só isso mesmo. Até porque, aqueles que não sabem perdoar acumulam decepção e, talvez, ódio por companheiros desleais e ingratos que os traíram.
Há casos extremos em que chegamos a ter nojo daqueles que simularam, mentiram, encenaram, acovardaram-se e negaram nos conhecer, como fez Pedro, ao se apequenar diante dos guardas, negando ser discípulo do Cristo e este, mesmo assim, não negou o seu perdão.
Sofremos quando mãos que procuraram as nossas as tiveram com lealdade, mas, depois, covardemente, se recusaram a apertá-las; rostos amigos e bondosos que depois nos presentearam com a frieza, o silêncio e a indiferença; enfim, nos evitaram e se esquivaram. Sobre esse tipo de pessoa, Alan Kardec comenta: “Ah! O covarde que age dessa forma é cem vezes mais criminoso que aquele que vai direto ao inimigo e o insulta face a face.”
Deste modo, covardes são aqueles que ainda tentam agir com os costumes dos bárbaros; não sabem que a ingratidão, a indiferença e a vingança são um atraso dos homens que a elas se entregam; são homens que ainda não se conscientizaram do preceito do Cristo ao ensinar: “Perdoai aos vossos inimigos”; homens que, ainda assim, se recusam a perdoar, como se não fossem cristãos, como ensina Allan Kardec. Essas pessoas são também parceiras de memoráveis jornadas, mas contrariaram um dos mais importantes postulados de Lao Tse: “Cuide do fim como você cuida do começo, e não fracassarás.”
Afinal, o que leva uma pessoa a se relacionar e confiar em elementos desleais e covardes? Refiro-me a sujeitos canalhas, de incurável cinismo que, verdadeiramente, mentem e traem por serem carentes de caráter ou por terem deficiência moral, como insinua Napoleon Hill.
Como a verdade da pessoa canalha vem de uma grande mentira, ela representa e engana muita gente, dizendo ser o que não é. No entanto, no íntimo, por “ser só isso”, por ser só mentira e disfarce, repugna-se e sucumbe diante desta que é a sua única verdade.
Excetuando a exagerada afirmativa de Nelson Rodrigues, ao dizer que “O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte", é certo que, como seres humanos em evolução, devemos aprender a perdoar a todos. Mas também é certo que devemos nos precaver diante da pessoa canalha, pois esse tipo de gente vive armando e nem se guarda dos vermes. E depois, ainda diz: “Este é o meu destino!”
O canalha, por ser uma pessoa de incurável cinismo, trapaceira, é convincente, é elemento habilidoso, que chega a enganar até o médico da família quanto à sua verdadeira doença, e depois ainda diz: “Fiz por brincadeira!”; “Fiz porque sou inocente”. Resta-nos atentar ao conselho de John F. Kennedy: “Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos.”
Ainda assim, devemos perdoar a pessoa canalha, gente que se apresenta como um grande ser, que inventa parceiros e clientes para usá-los e depois remetê-los para o inferno como entediantes fantasmas. Perdoemos, mesmo que urre a pessoa canalha: “Ah, estou vingado!” Afinal, é esta a autorrecompensa dos apequenados, pois vingativo é o seu coração.
Como o tempo se encarrega de apurar tudo, depois a pessoa canalha, diz: – Caí! A minha mentira é maior do que a minha força! Sim, ao menos isso é verdade, sou uma mentira! Pode acreditar em mim!
Ó meu irmão, se você conviveu com algum canalha, procure esquecer. Que bom, já passou! O seu nariz se livrou daquele cheiro, daquele mau hálito. Mas, mesmo assim, como ser humano em desenvolvimento, perdoe. Nunca, porém, se esqueça que, diante de porcos, devem-se erguer cercas.
Devemos perdoar os canalhas, porque eles vivem na escuridão, no labirinto da mentira; vivem sob forte impulso, motivados pelo domínio dos envolventes; possuem agigantado anseio para seguir adiante, menos para o alto; pagam o preço que cobrarem por sua montaria, derrubam as cercas alheias, vivem deslealmente, vivem sem um sentido de vida e, normalmente, pensam estar em viagem rumo à ilha da fantasia, sem se aperceber que tudo em sua vida não passa de um exílio para esconder o rubro de sua vergonha, por ter voltado para o canil.
Afinal, o que leva alguém a se relacionar com criaturas do “tudo para mim”? Seria por medo de mudar? Seria por gostar do aprisionamento emocional? E por que isso, já que são pessoas que somente se preocupam com os seus próprios interesses? Por que se relacionar e acreditar em gente fria e má? Elementos que parecem ser co-autores de “O Príncipe” de Maquiavel? Pobres de espírito que até sorriem, mas só o fazem para ironizar, e que ainda devem sorrir ao encenar o roto filme de suas vidas, e verem, em algumas cenas, seus exuberantes desempenhos no papel de o “Homem de Lata”, aquele de “O Mágico de Oz”, o que não tinha um coração? Gente pequena, que dá ao semelhante o mesmo fim que dá aos velhos cadernos? Habilidosos em usar as pessoas para depois as jogarem num canto qualquer?
Há situações, entretanto, em que chegamos a confiar em elementos que têm na habitualidade de condutas traidoras e covardes uma das características marcantes de sua personalidade. Para gente assim, há o efeito profetizado por Platão, ao sentenciar: “[...] embora escapem em sua juventude [...] um dia serão descobertos pelos desígnios da vida [...] ainda sofrerão o escárnio [...]”
Por isso, creio que devemos perdoar a todos, até mesmo àqueles que a sua própria alma quer abandonar, para que não morra antes do corpo. Devemos nos preparar para perdoá-los, inclusive no dia do grande desprezo. Devemos saber que não é por maldade que eles não dão mais... é porque não têm mais nada para dar.
Devemos perdoar até os venenosos, aqueles que continuam com a crença de que veneno gera sonhos e estes produzem bons resultados. Mas, por que não perdoar também os venenosos? “Ah, veneno de cobra não mata dragão”, assim falava o Zaratustra de Nietzsche. Mas saiba: não dê o veneno de volta, pois isso humilhará, e quem humilha não sabe perdoar; quem humilha tem uma história de comportamento desumano e covarde.
Penso que devemos perdoar até mesmo aqueles que têm um profundo buraco negro no estômago causado pelo Prozac... Os que dormem mal por causa da própria covardia. Também aos que sorriram de ódio na nossa cara, que zombaram de nós, que premeditaram a nossa morte com a ironia do riso venenoso; aqueles que sabiam que a ira não os levaria a lugar algum.
Não hesitemos em perdoar também aos que deixaram de ser valentes; perderam a coragem e o entusiasmo; não honram mais a sua história; deixaram-se murchar e cair; voltariam a ser criancinhas, se pudessem, lá, onde circunda o ar puro das matas; estão fartos de elogios com segundas intenções; são venerados nos cantos escuros; têm medo de claridade; ainda não se conscientizaram de seu abandono; perderam a sua paz; são rastreados e procurados por outros motivos; hoje estão mais abandonados do que ontem; riem à toa; deixam-se ser montarias; são odiados silenciosamente pela multidão.
Estejamos sempre prontos para dar a mão também aos que nem merecem as patas do cachorro morto; aos que insistem em falar como um palhaço buscando migalhas; que são levados para qualquer canto; que só servem para depois da refeição ou na hora da sede.
Perdoemos, mas tenhamos cuidado com os que têm a alma faminta; com os que se apresentam como fantasmas, querendo nos dar a mão; com aqueles que não passam de verdadeiros bois ruminadores, e de vacas, que nem água dão nos seus ubres mirrados.
Nunca, entretanto, desejemos que os covardes um dia venham a se perguntar: Eu sou necessário à vida? Não, não ajamos assim, pois isso soa como vingança, e vingança é coisa de covarde. Conservemos a esperança de que eles um dia venham a refletir: A minha existência é só isso? Qual é o sentido da minha vida? O que eu posso fazer para ser melhor? E, ainda, conservemos a esperança de que um dia eles deixem de ser fugitivos, que não queiram mais se esquecer de si próprios.
Enfim, compreendamos e saibamos perdoar até mesmo os inimigos que nos odeiam, e jamais esqueçamos que devemos honrar até mesmo o inimigo. No entanto, diante daqueles que são hábeis na arte do desprezo e da covardia, precisamos perdoá-los e desaparecer; afinal, não vale a pena corrermos o risco de sermos mastigados e devorados. Não vale a pena confiar que, por serem pequenos demais, ou por serem só isso, eles não teriam como fazê-lo. Por isso, desejemos um inimigo que nos odeie, os declarados roedores e ruminadores, mas jamais desejemos aquele inimigo que nos despreze e nos negue, ou seja, os exímios vingadores invisíveis.
Perdoemos ainda os que vivem sentados nos tronos de lodo. Também os que querem obedecer aos que querem dominar. Os aduladores de uma solidão a dois, que ainda não se encorajaram para fugir para uma solidão a sós, e querem vingar-se de si próprios por serem só isso.
Compreendamos a pequenez daqueles que têm instinto de animais. Os que, com os seus focinhos, farejam e depois, de panças cheias, viram-se para o lado e tentam dormir. Compreendamos também os que ainda não sabem para que nasceram; os que querem ir embora, mas não sabem para onde; os que têm um bicho roendo os seus corações; os que não conseguem ficar doces; os que nem sabem que, a qualquer momento, poderá vir uma forte ventania que derrubará as frutas bichadas; os que, ao se olharem no espelho, se depararão com o bicho de sete cabeças; os que um dia saberão que os seus companheiros de travessia estão envergonhados de terem feito viagens em sua companhia.
Perdoemos ainda os que têm tudo para sofrer muito mais ainda; os que nunca acharão o que não perderam; os senhores da discórdia interior; os que são comprados como quiabos em cestos e, dentro em breve, poderão se envergonhar de si mesmos; os que ainda não aprenderam a lição de que se deve fazer guerra para conquistar a paz... nunca se acovardar.
Lembremo-nos também dos que se alimentam com conversas estéreis; aqueles que pensam que o sentido da vida está em ter um queijo tipo 24 horas; os que, como colegiais, acreditam no poder do glamour daquilo que é bonito e comovedor, mesmo que tenha vida curta; os que constroem as muralhas de seu futuro derrubando as muralhas alheias.
Da mesma forma, devemos também perdoar aos que, covardemente, foram compelidos a mudar o conceito a nosso respeito; aos que receberam ordens para desprezar-nos.
Mas, para não sermos precipitados, convém deixar claro que esse desprezo pode ser fruto de uma empatia silenciosa, Entretanto, é também importante saber que só os covardes têm o dom de desprezar os empáticos. Somente eles têm o dom extraordinário de desprezar o que querem. Ou, como aponta Lou Marinoff, quanto mais se quer algo, mais as pessoas têm o dom de atrair ou repelir; afinal, o oposto do querer muito não é o ódio, mas sim a indiferença.
Precisamos saber que os covardes são pequenos demais para se pronunciar. Mesmo assim, devemos dar as nossas mãos, e não as lavemos. Agindo assim, é certo que elas ficarão sujas, mas a nossa alma estará limpa. Não tenhamos vergonha da vergonha do outro, pois isto não basta. Vamos ajudá-lo!
Devemos perdoar até mesmo os náufragos das piscinas cheias de ratos, que nem sequer aceitam ajuda; os que acham que, por trás de uma boa ação, há sempre interesse. Entendamos que são pequenos demais aqueles que veem a ajuda como vingança ou como humilhação; que retribuem os benefícios recebidos com uma disfarçada crueldade; que conseguem transformar um favor recebido em ressentimento. Também os que anseiam por exterminar os que os presentearam; que têm fome do mal; que secaram o próprio sorriso. Enfim, esqueçamos os maldosos e os desonestos.
Tenhamos compaixão diante daqueles que não conseguem perdoar a si próprios. Perdoemos até mesmo aqueles que têm pacto com o diabo; os covardes que brincam de crucificar as pessoas; os que não sabem amar a Deus, que abandonaram a fé, os cultos, os templos; aqueles que têm vergonha de orar e terminaram cheirando mal e vivendo na aflição em nome de sua vingança.
Também aos que se calaram diante de nós, pois jamais se encorajarão para exalar uma disfarçada fumaça de socorro. Perdoemos, não os queiramos ver como cinzas. Devemos vê-los como flores vermelhas de janeiro, que eles tanto temem. Perdoemos, mesmo diante de sua mudez e de seu medo.
Parte II
Façamos o bem, mesmo diante dos que são indignos de nós, daqueles que nem cheiram como os porcos; os que têm a delicadeza e a doçura envenenadas; os escravos dos tiranos; “Aqueles que o seu amor ao próximo é o vosso mau amor por vós mesmos”, como falava o Zaratustra de Nietzsche, lá do alto da montanha.
Contrariamente a Nietzsche, entretanto, não devemos nos guardar dos pequenos homens, mesmo sabendo que estaremos correndo o risco de conquistar um inimigo se este vier a perceber que não somos da altura deles; afinal, inimigos querem amigos a sua altura. Por isso, aquele que se eleva, parecerá menor aos olhos dos que não têm asas para voar. Voemos assim mesmo, porém cônscios de que o sentimento de inferioridade pode desencadear uma invisível vingança. Mesmo sabendo que eles são indignos de nós, que poderão sugar todo o nosso sangue, nos odiarem e esconjurarem, mesmo assim, devemos ajudá-los.
Por serem pequenos demais, os covardes nem sabem o que é ter um amigo. Mas saibamos que, nas suas profundezas, eles anseiam por um amigo demasiadamente leal, pois a conquista de um amigo de verdade revelará o que eles gostariam de ser. O desejo daqueles que vivem no labirinto da covardia é poder pular por cima de sua pequenez. Entretanto, por serem só isso, agridem silenciosamente as pessoas e as transformam em inimigos. Tudo isso, entretanto, é somente para esconder a própria vulnerabilidade.
Acolhamos os covardes que, com os seus focinhos, enlameiam a fonte da vida, mas evitemos beber a água da mesma nascente. Ah, ainda bem que há uma fonte longe demais dos covardes! Devemos perdoá-los, mas também não nos aqueçamos na mesma fogueira, pois ela poderá estar envenenada.
Acolhamos também àqueles que, no máximo, têm “espírito de porco”; e, ainda, àqueles que não têm meta, os que apenas têm afazeres de curta duração. Vamos encorajar os que conseguem transformar os seus heróis em objetos de raiva a não matar os ídolos que moram em sua alma.
Enfim, mesmo diante do mal da covardia que nos fizerem, mesmo diante dos homicidas, dos sangradores de almas, daqueles que transformaram o nosso afeto em desafeto, façamos o bem assim mesmo, nem que isto soe como humilhação.
Abramos o círculo do nosso sol para acolher os covardes; os que têm um gosto amargo na boca, amantes da náusea, cheiradores de esterco; os que deveriam ter patas; àqueles cujo cérebro paralítico não responde; os que são maquiados pela máscara natural de seu rosto; os que, por si só, já assustam os passarinhos; os que pensam ter cara de anjo, que bastam por si sós; os que nem precisam de parceiros; os que têm os dedos longos; os corujas, que não acreditam na lua; os que deixaram de crer em si; os que se dizem inocentes, mas só sabem praticar o mal; os que comeram todo o queijo posto à mesa e, mesmo com azia, ainda querem mais queijo; os que não gostam de goiabada; os que exalam um fedorento cheiro de covardia.
Acolhamos até mesmo os inocentemente perigosos, trituradores, venenosas aves de rapina, águias. Os que veem Deus como subterfúgio; os que, no seu anzol, sempre vem um sapato velho cheio de gosma.
Sejamos indulgentes até com os que se vangloriam: “Ah, estou vingado!”; os que ainda não se conscientizaram de que esta é a autorrecompensa dos apequenados; os que têm o coração vingativo; os que, onde pisam, nem sequer nasce grama; onde jorra o seu suor, enlameia; o que desejam murcha; a sua voz ecoa vingança; a sua ação traduz traição e mágoa; do brilho dos seus olhos reluz a punição.
Oremos pelos que andam ao lado dos vermes. Também oremos por aqueles que, se perderem o mal, perderão a sua essência; os que “cuspiram no prato em que comeram”; os que terão que andar mil quilômetros para atravessar a rua; os que rodam, rodam, rodam e rodam e nem chegam ao mesmo lugar. Tiremos a faca de suas mãos; tiremos, mas tiremos mesmo! Se necessário, arranquemos os dentes desses predadores; coloquemos vendas nos seus olhos. Por fim, tiremos a voz dos que pensam baixinho, dos que têm medo da voz do seu pensar, que querem dar apenas mais um único uivo com os seus pensamentos. Mesmo assim, não titubeemos em ajudá-los; fiquemos sob o mesmo sol, mas nunca de costas para eles.
Não queiramos mal aos malvados, àqueles de carícias felinas, que pensam que tudo podem fora da racionalidade; aos que têm que se abaixar para adentrar.
Companheiros, não abandonemos os covardes, de quem todos falam, mas ninguém pensa; os que dormem de olhos abertos. Ajudemos os hipócritas autenticados, aqueles que não suportam uma corrente de ar puro, os verdadeiros animais domésticos, que o nojo impede que sejam pisados; os escarrados, que têm os joelhos lisos por não saberem se curvar; os falsamente delicados; os ímpios, breves enganadores, sonhadores da mentira, poderosos rastejadores, que, mesmo sem gostar, se aquecem nas caipirinhas e, por covardia, nem cospem no chão.
Encorajemos os serviçais a darem um sentido à sua vida, também às rãs e aos sapos dos pântanos urbanos, sem nos esquecer de perdoar às traíras dos diques.
Incluamos na lista dos que devemos ajudar os venenosos que estão com a voz fraca de tanto mendigar. Os que vivem como um avestruz, com a cabeça enfiada na terra, que acham que tudo está muito bem, que pediram a sua cabeça, mas foi concedida a sua alma.
Eduquemos para ajudar na ressocialização dos ladrões, mas evitemos o cuspe, a saliva e a baba dos covardes. Ajudemos os malvados e, da mesma forma, os seus adestradores; os que não sabem o caminho de casa; os que permitem que pulem por cima de si.
Oh, meus amigos, eu sei que vocês sabem que, para os porcos, tudo parece farelo. Por isso, sejamos clementes e ajudemos também aos porquinhos, àqueles que se satisfazem com as conquistazinhas e com todo tipo de “inho”. Não os deixemos morrer perto da aguada; se preciso for, vamos puxá-los pelo braço e espantar os urubus e as moscas. Em nenhuma hipótese, queiramos ser a nova versão de Friedrich Nietzsche que, diante desse quadro, seria parafraseado pelo seu Zaratustra, ao sentenciar: “Sou cruel, meus irmãos? Mas eu vos digo: àquele que cai, deve-se, ainda, dar-lhe um empurrão!”
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde! Você ainda se lembra do dia em que apunhalou aquele camarada que estava caído no chão? Ah, covarde, porque dissestes que ele era seu amigo e depois o negou? Foi assim que o Cristo lhe ensinou? Ele, que chegou até a ficar amigo do ladrão para mudar o seu coração.
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde, aprende a lição de que os felizes não são maus! Ah, covarde, queira não enganar a mais ninguém, pois já o fizeste bastante! Ah, covarde, tu já tens muito ardil contra ti! Ah, covarde, não queira que a tua verdade seja a náusea! Ah, covarde, tudo em ti é mentira, mas, agora, chega! Ah, covarde, cuidado com a revolta das almas daqueles a quem mataste! Ah, covarde, chega de desdém; tira o véu que oculta a tua vergonha! Ah, covarde, porque te desprezaram?
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde, não queiras que as vacas mujam de ti! Ah, covarde, também serão perdoados os lascivos, mandriões, muares, mascarados e esquecidos! Ah, covarde, não faças do mal a tua força! Ah, covarde, não queiras ser uma obra falsa! Ah, covarde, cuidado para não tropeçares ao saltar do cavalo! Ah, covarde, mata o teu animal interior! Ah, covarde, aprende a apoiar-te em tuas próprias pernas!
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde, como um cão que reencontrou o teu dono, voltaste para o canil! Ah, covarde, o que tens feito de útil com a tua liberdade? Ah, covarde, encosta o teu nariz na velha árvore da mata verde, e sente o cheiro de tua consciência! Ah, covarde, pede com o coração: Vinde! E Ele virá, pois Ele acolhe também os opróbrios.
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde, já morri, o que mais queres? Ah, covarde, renasci! Ah, covarde, aproxima-se o grande dia! Ah, covarde, não me toques mais, sou muito puro para você! Ah, covarde, o dia já clareou, deixe de sofrer! Ah, covarde, cuidado para a tua dor não se transformar em eterno prazer! Ah, covarde, deixes de mendigar! Ah, covarde, não esbanjes o que não tens.
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde, deixes de ser velhaco, aleijão e obtuso! Ah, covarde, deixes de rir ao matar! Ah, covarde, que demônio brabo é este que mora dentro de ti? Ah, covarde, porque a tua inocência é escassa de bondade? Ah, covarde, o que restou de ti? Ah, covarde, porque ainda queres o último pecado?
Como seres humanos em evolução, evitemos dizer: Ah, covarde, ainda bem que tudo passa, mas nem tudo passará diante da luz! Ah, covarde, porque te mostras tão dócil a ponto de causares enjoo? Nojo, nojo, nojo... Vômito, vômito, vômito...! Ai de ti, covarde! São tantas as curvas no rio da vida... Mas, mesmo assim, perdoemos companheiros, não abandonemos ninguém; esta é a lei maior!
Ao covarde, resta querer sair do labirinto. Fica de pé, covarde! O mundo aguarda por ti, renovado. Não esqueças que tudo morre, mas saibas que, além da vida que tens, existe uma outra vida, em que tudo renasce e na qual morrer não é o fim. Não creias somente no fermento que apenas incha. Lembra-te: tudo vai e tudo volta. Tudo faz e tudo se desfaz e refaz. Mas anda, e anda logo, livra-te do mal que te atacou, e escarres imediatamente, escarres e escarres a tua gosma salgada. Sim, é certo que o teu passado está apodrecido, mas da lama nascem lírios. Cuspa três vezes e, se preciso for, cuspa trinta vezes; trezentas e trinta vezes. Mas deixa de farsa!
Mas, companheiros, como seres humanos em evolução, precisamos nos dar mais. Precisamos saber que, entre as madeixas dos cabelos dos covardes, há uma fenda e por esta fenda entra luz. Pois é, companheiros, perdoemos e tentemos levar luz aos labirintos do vazio existencial do covarde. Digamos-lhe que não nasceu para ser só isso! Digamos assim até para os agourentos, os falsos, tortos, monstruosos, frouxos, mornos, bestas. Digamos ainda para os cachorros solitários e para os que tropeçam nos cachorros mortos. Também àqueles que pisam em suas vítimas, e vão chorar. Aos que obedecem a um idiota e ainda rogam pragas.
Enfim, não nos entristeçamos por termos vivido ao lado de um covarde; apenas nos envergonhemos. Ah, isso já passou! Só ficaram as cicatrizes. Agora, vivamos a nossa solidão, que é demasiadamente melhor do que o abandono. Vivamos o nosso silêncio, jamais a covardia!
Encorajemo-nos e perdoemos, mas priorizemos o perdão para os ruins. Para esses, mesmo estando certos, digamos que erramos. Saibamos: somente os corajosos se comportam assim diante dos ruins, dos que acreditam que a carinhosa mentira seja uma verdade. Tentemos evitar até mesmo as pequenas vinganças. Deixemos as pedras chorarem por vergonha de si, mas não neguemos o nosso lenço. Agindo assim, não andaremos somente para frente, mas também para o alto.
Enfim, companheiros, perdoemos, mesmo que venhamos a afirmar: “Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”.

 

 

 

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